Beber um copo de água quente ou morna logo ao acordar é um ritual que atravessa gerações e fronteiras. Para a Medicina Tradicional Chinesa e a Ayurveda, o hábito é sagrado para “despertar o fogo digestivo”. Mas o que a ciência ocidental e a fisiologia moderna têm a dizer sobre isso? Um levantamento detalhado, analisado pela Popular Science, desconstrói os mitos e isola os benefícios concretos dessa prática, revelando que, embora não seja uma “cura mágica”, a temperatura da água pode, sim, influenciar processos internos fundamentais.
Ao contrário do que muitos acreditam, a água quente não queima gordura milagrosamente nem “derrete” toxinas. No entanto, o impacto térmico no trato gastrointestinal e no sistema circulatório promove uma série de ajustes homeostáticos que podem melhorar significativamente o bem-estar de quem sofre com problemas digestivos ou congestão nasal.
Estímulo peristáltico: a água morna atua como um vasodilatador no sistema digestivo, ajudando a relaxar os músculos intestinais e facilitando a evacuação.
Alívio da congestão: o vapor e o calor da água ajudam a fluidificar o muco nas vias aéreas, sendo um aliado natural para quem sofre de rinite ou sinusite matinal.
Termorregulação e conforto: o consumo de líquidos aquecidos reduz o esforço do corpo para manter a temperatura interna, promovendo uma sensação de relaxamento sistêmico.
Hidratação eficiente: para muitas pessoas, a água morna é mais palatável pela manhã do que a água gelada, o que favorece a ingestão de volume hídrico logo nas primeiras horas do dia.
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O impacto na digestão: o fator vasodilatação
O principal argumento científico a favor da água quente reside na sua capacidade de promover a vasodilatação. Quando bebemos algo gelado, o corpo reage contraindo os vasos sanguíneos para preservar o calor interno e gastando energia para aquecer o líquido até a temperatura corporal (cerca de 37°C). Ao ingerir água morna (entre 50°C e 60°C), o efeito é oposto: os vasos se dilatam, aumentando o fluxo sanguíneo para os órgãos abdominais.
Esse aumento na circulação local pode auxiliar na quebra de partículas de alimentos e na motilidade intestinal. Para indivíduos que sofrem de acalasia (uma condição onde o esôfago tem dificuldade em passar comida para o estômago) ou constipação crônica, a água quente tem se mostrado um agente terapêutico de baixo custo e alta eficácia, ajudando a relaxar o esfíncter esofágico e estimular o cólon.
Desintoxicação ou apenas filtração?
É comum ouvir que a água quente “limpa o sangue”. Do ponto de vista biológico, quem faz a limpeza do sangue são os rins e o fígado. No entanto, a água morna contribui para esse processo de forma indireta: ao melhorar a circulação e aumentar levemente a temperatura corporal, ela pode estimular o sistema linfático e a sudorese, auxiliando na excreção de resíduos metabólicos.
Além disso, a hidratação matinal ajuda a diluir o ácido úrico e outras toxinas que se concentram na urina durante a noite, protegendo a função renal. Beber água quente não substitui uma dieta saudável, mas garante que os filtros naturais do corpo operem em condições térmicas ideais.
Cuidados e temperaturas ideais
Nem toda água quente é benéfica. O risco de queimaduras no esôfago é real se a temperatura ultrapassar os 65°C. Estudos indicam que o consumo crônico de bebidas excessivamente quentes está associado a um risco aumentado de câncer de esôfago. Portanto, a recomendação dos especialistas é a água morna, agradável ao toque e ao paladar.
Outro ponto importante é a adição de ingredientes. Colocar limão ou gengibre pode adicionar vitamina C e propriedades anti-inflamatórias, mas a “mágica” principal continua sendo a água e sua temperatura. Para quem busca apenas o despertar metabólico, a água pura é suficiente.