Automedicação com anti-inflamatórios ameaça rins e coração

Estudo revela que 9 em cada 10 brasileiros se automedicam, elevando riscos de problemas renais e cardíacos

Uso de anti-inflamatórios como automedicação é perigoso. Prática comum pode causar danos renais e cardíacos, especialmente em grupos de risco
Uso de anti-inflamatórios como automedicação é perigoso. Prática comum pode causar danos renais e cardíacos, especialmente em grupos de risco Foto: Reprodução

A automedicação de anti-inflamatórios, uma prática comum entre brasileiros, representa um perigo silencioso para a saúde, podendo causar danos graves aos rins e ao coração. Cerca de nove em cada 10 pessoas no Brasil tomam medicamentos por conta própria, e os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno e diclofenaco, estão entre os mais utilizados para aliviar dores nas costas, cabeça ou musculares.

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O que aconteceu

  • A automedicação com anti-inflamatórios é uma prática disseminada no Brasil e oferece riscos significativos aos rins e ao coração.
  • A combinação de AINEs com diuréticos e medicamentos para pressão, conhecida como “tríade perigosa”, pode levar à insuficiência renal aguda e crônica.
  • O uso prolongado desses fármacos também eleva a pressão arterial, causa descompensação em doenças cardíacas e aumenta o risco de sangramentos e infarto.

Esse hábito, aparentemente banal, pode se tornar ainda mais prejudicial quando os anti-inflamatórios são combinados com outros medicamentos, um cenário frequente em pacientes hipertensos ou cardíacos. A chamada “tríade perigosa” inclui anti-inflamatórios, diuréticos e remédios para pressão, como os inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor de angiotensina.

Cada um desses fármacos atua em diferentes partes do sistema que regula a filtração do sangue pelos rins. Quando usados simultaneamente, eles podem reduzir drasticamente a pressão interna necessária para o funcionamento renal, comprometendo a capacidade dos órgãos de filtrar o sangue de forma adequada.

Outras combinações igualmente arriscadas para os rins incluem AINEs com inibidores de SGLT2 (como dapagliflozina e empagliflozina), usados para diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal crônica; com lítio, empregado no tratamento do transtorno bipolar; e com ciclosporina, indicada para doenças autoimunes e inflamatórias graves como psoríase e artrite reumatoide.

A interação medicamentosa também pode anular o efeito de medicações anti-hipertensivas, prejudicando o controle da pressão alta. Adicionalmente, os AINEs são capazes de potencializar os efeitos de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários, elevando significativamente o risco de sangramentos e hemorragias.

Como os anti-inflamatórios afetam os rins?

Os rins desempenham um papel vital na filtração contínua do sangue, 24 horas por dia, e para isso precisam de uma pressão interna adequada. Os AINEs bloqueiam a produção de prostaglandinas, substâncias essenciais que agem como “mantenedoras da pressão” dentro dos rins, garantindo que os vasos sanguíneos permaneçam abertos e bem irrigados.

“Quando essas prostaglandinas são bloqueadas, os vasos que levam sangue ao rim se contraem. O rim recebe menos sangue e filtra menos. Em pessoas saudáveis, isso geralmente é temporário e reversível, mas em quem já tem algum problema renal, pressão alta, diabetes ou idade avançada, essa redução pode ser suficiente para causar danos graves”, explica a nefrologista Patricia Taschner Goldenstein, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Um estudo transversal conduzido no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) demonstrou que 14,8% dos pacientes com doença renal crônica utilizavam AINEs, grande parte por automedicação. As principais causas eram dores reumáticas e musculoesqueléticas, que frequentemente levam ao uso repetido desses medicamentos.

Em grupos vulneráveis, como hipertensos e diabéticos, os rins operam com uma “margem de segurança” reduzida. Nesses indivíduos, os pequenos vasos renais frequentemente já apresentam lesões, um processo conhecido como microangiopatia. Os rins ainda funcionam, mas possuem menor reserva para enfrentar situações de estresse.

Já em idosos, ocorre um declínio natural da função renal associado ao envelhecimento. A partir dos 40 anos, estima-se uma perda de aproximadamente 10% da função renal por década. Assim, uma pessoa de 70 anos pode ter apenas 70% da função renal de um jovem, mesmo que aparentemente saudável.

Nesses casos, até uma dose única de anti-inflamatório pode desencadear insuficiência renal aguda, uma condição em que o órgão para de funcionar abruptamente, mas com chances de recuperação se o fármaco for suspenso rapidamente. Contudo, se o uso for prolongado, pode evoluir para nefropatia crônica, com lesões permanentes nos rins, fibrose e cicatrizes no tecido, podendo levar à doença renal terminal, que exige diálise ou transplante.

“O uso prolongado é perigoso até para rins saudáveis, com aumento do risco de desenvolver doença renal crônica, mesmo em pessoas sem fatores de risco prévios como diabetes, pressão alta, obesidade e idade avançada”, alerta Goldenstein. A doença renal crônica frequentemente avança de forma silenciosa.

“Estima-se que cerca de 90% das pessoas nos estágios iniciais não sabem que têm a doença”, relata a nefrologista. “Quando alguém com os rins já comprometidos toma anti-inflamatórios regularmente, está acelerando a perda de função renal sem perceber.”

Os sintomas, quando aparecem, podem incluir urina espumosa, redução do volume urinário, inchaço nas pernas ou ao redor dos olhos, náuseas, falta de apetite e cansaço inexplicável. Em muitos casos, o primeiro alerta surge apenas quando a função renal já está severamente comprometida, com sinais como sangue na urina e confusão mental.

Quais os riscos para o coração e outros órgãos?

Os efeitos do uso prolongado dos anti-inflamatórios não esteroides não se restringem aos rins. Do ponto de vista cardiovascular, esses medicamentos estão longe de ser inofensivos. “O uso de anti-inflamatórios geralmente leva a uma retenção maior de sal e água, e isso pode levar a um aumento da pressão arterial”, observa o cardiologista Carlos Eduardo Montenegro, vice-presidente do departamento de Cardiologia Clínica da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). A própria piora da função renal contribui para esse impacto no coração.

Em pessoas com doenças cardíacas preexistentes, o risco pode ser ainda mais grave. “É muito comum que o uso por um tempo um pouco maior do que alguns dias leve a descompensações de doença coronariana, como eventos de angina ou até infarto agudo do miocárdio”, relata Montenegro.

A utilização prolongada de AINEs também pode afetar outros órgãos, como estômago e fígado, podendo causar úlceras e hepatites, principalmente em idosos ou indivíduos com complicações prévias. Por isso, o uso desses medicamentos deve ser feito com extrema cautela, sempre na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível.

Existem alternativas seguras para a dor?

Existem alternativas mais seguras para o controle da dor, quando utilizadas corretamente. Paracetamol e relaxantes musculares são alguns exemplos. “A escolha do tratamento ideal depende do tipo de dor, das condições clínicas do paciente e de uma avaliação individualizada”, orienta Patricia Goldenstein. No entanto, o ponto crucial não é apenas substituir um remédio por outro.

“O mais importante é identificar a causa da dor. Tratar a origem do problema é sempre melhor do que apenas suprimir o sintoma com medicamentos indefinidamente”, aconselha a médica do Einstein.