Pesquisa identifica quatro fatores que concentram até 99% do risco de infarto e AVC

Estudo internacional reforça que infartos e AVCs raramente acontecem “do nada” e são precedidos por fatores de risco conhecidos

Paciente diante de médica
Foto: Freepik
Um estudo internacional publicado em outubro de 2025 no Journal of the American College of Cardiology indica que a maioria dos infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) não acontece “do nada”, eles tendem a ser precedidos por fatores de risco conhecidos e monitoráveis ao longo de anos.  
A pesquisa analisou dados de mais de 9,3 milhões de adultos na Coreia do Sul, acompanhados entre 2009 e 2022, e de cerca de 7 mil adultos nos Estados Unidos, acompanhados por quase duas décadas, e constatou que mais de 99% dos indivíduos que tiveram o primeiro evento cardiovascular já apresentavam pelo menos um fator de risco tradicional em níveis fora do ideal antes do episódio ocorrer.
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Quais são os quatro fatores de risco identificados?

1. Pressão arterial elevada
A pressão arterial elevada foi o fator mais comum associado a eventos cardiovasculares, presente em mais de 95% dos casos tanto na população da Coreia quanto nos Estados Unidos.  
A hipertensão ocorre quando a força do sangue contra as paredes das artérias está constantemente acima do nível considerado ideal (acima de 120/80 mmHg) e aumenta progressivamente o desgaste dos vasos sanguíneos, podendo levar ao entupimento ou ruptura.  
2. Colesterol alto
Colesterol é uma substância essencial ao organismo, mas seu excesso — especialmente do LDL (“colesterol ruim”) — favorece o acúmulo de placas de gordura nas artérias. Esse acúmulo reduz a passagem de sangue e pode obstruir artérias que irrigam o coração e o cérebro, desencadeando infarto ou AVC.  
3. Açúcar sanguíneo elevado
Níveis elevados de glicose no sangue — mesmo antes de um diagnóstico formal de diabetes — estão associados a inflamação crônica e lesão das paredes dos vasos sanguíneos. Quando a glicose está acima de cerca de 100 mg/dL em jejum, o risco cardiovascular já começa a subir.  
4. Tabagismo
Fumar — ou ter sido fumante no passado — acelera o envelhecimento e a rigidez das artérias, facilita a formação de coágulos e reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio. Mesmo ex-fumantes carregam um risco elevado por muitos anos.  

O que o estudo mostra sobre a previsibilidade dos eventos

Ao longo do acompanhamento prolongado dos participantes, os pesquisadores constataram que mais de 99% das pessoas que tiveram um infarto, AVC ou insuficiência cardíaca já apresentavam um ou mais desses fatores fora do ideal antes do evento. Isso inclui pessoas tradicionalmente consideradas de menor risco, como mulheres com menos de 60 anos, em que mais de 95% também tinham pelo menos um sinal de risco detectável.  
Além disso, a maioria dos participantes acumulava dois ou mais fatores de risco simultaneamente, o que potencializa a probabilidade de eventos cardiovasculares graves.  

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores combinaram grandes bases de dados longitudinais de dois países com perfis populacionais muito distintos, o que fortalece a consistência dos achados:
•Coreia do Sul — dados de 9,341,100 adultos ≥20 anos, com acompanhamento médico regular entre 2009 e 2022;
•Estados Unidos — cerca de 6.803 adultos com idades entre 45 e 84 anos, acompanhados entre 2000 e 2019.  
Os cientistas avaliaram repetidamente, ao longo de muitos anos, quatro marcadores clássicos de risco cardiovascular — pressão arterial, colesterol, glicose em jejum e histórico de tabagismo — e compararam seus níveis antes do primeiro evento cardiovascular com os desfechos observados.  
Esse desenho prospectivo e de grande escala, com dados repetidos ao longo de décadas, permitiu observar que a maioria dos eventos cardiovasculares estava associada a fatores detectáveis anos antes da ocorrência de doença clínica — um insight que reforça a importância da vigilância contínua.  

O que isso significa para a prevenção ao longo da vida

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Estudos como este mostram que, ao contrário da crença popular de que infartos e AVCs acontecem “do nada”, eles geralmente são resultado de processos crônicos que se manifestam lentamente ao longo de anos.  
Isso realça a importância de:
•Aferir pressão arterial regularmente e, se necessário, tratá-la;
•Monitorar e controlar o colesterol por meio da alimentação, atividade física e, quando indicado, medicação;
•Manter níveis saudáveis de açúcar no sangue, prevenindo ou gerenciando a resistência à insulina e o diabetes;
•Evitar o tabagismo e buscar cessação se já foi fumante.
A prevenção cardiovascular não é um evento isolado: trata-se de um cuidado contínuo e integrado ao longo da vida, com atenção a fatores metabólicos e comportamentais que podem ser modificados antes que ocorram desfechos graves.