A disparidade na prevalência de transtornos mentais entre homens e mulheres é um tema central nos debates da psiquiatria contemporânea. Um estudo recente, fundamentado em análises genômicas de larga escala, trouxe uma nova camada de compreensão para esse cenário: as mulheres apresentam uma carga genética significativamente mais alta para a depressão. A descoberta ajuda a explicar por que o público feminino registra taxas de diagnóstico até duas vezes superiores às do público masculino.
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O peso da hereditariedade na saúde mental feminina
Historicamente, a ciência atribuiu a maior incidência de depressão em mulheres a fatores flutuantes, como variações hormonais relacionadas ao ciclo menstrual, gravidez e menopausa, além de pressões socioculturais. No entanto, o novo levantamento destaca que a base biológica é mais profunda. Por meio de estudos de associação genômica ampla (GWAS), os pesquisadores identificaram que o limiar genético necessário para desencadear um transtorno depressivo parece ser diferente entre os gêneros.
Os dados sugerem que as mulheres podem herdar um maior número de variantes genéticas de risco. Essa “densidade” genômica faz com que a vulnerabilidade biológica seja um fator determinante, antes mesmo da exposição a gatilhos externos, como estresse ou traumas. A pesquisa reforça que a depressão não é apenas uma reação a eventos adversos, mas uma condição com raízes moleculares robustas e distintas.
A interação entre biologia e ambiente
Embora a carga genética seja mais elevada, a comunidade científica ressalta que o genoma não é um destino absoluto. A interação entre a predisposição hereditária e o ambiente — fenômeno conhecido como epigenética — desempenha um papel crucial. Em mulheres, essa interação é particularmente sensível. Fatores como a dupla jornada de trabalho, a desigualdade salarial e a sobrecarga de cuidados domésticos atuam como catalisadores que “ativam” essa carga genética pré-existente.
Instituições de prestígio, como a USP e centros de pesquisa vinculados à Fapesp, têm corroborado a tese de que o tratamento da depressão deve ser personalizado. A compreensão de que a arquitetura genética feminina é mais suscetível a esses transtornos permite que psiquiatras e psicólogos desenvolvam estratégias de intervenção mais precoces e eficazes.
“A identificação de uma carga genética superior em mulheres redireciona o foco da medicina personalizada para estratégias de prevenção mais específicas.”
Desafios no diagnóstico e tratamento
Um dos maiores desafios apontados pelo estudo é o subdiagnóstico em homens e o risco de estigmatização em mulheres. Ao afirmar que há uma predisposição biológica maior, a ciência não pretende minimizar os fatores sociais, mas sim garantir que a assistência médica seja fundamentada em evidências. Atualmente, o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) é o tratamento padrão, mas o conhecimento sobre a carga genética abre portas para terapias gênicas ou fármacos que atuem de forma mais precisa em receptores específicos.
Além disso, a análise do Bacen e de órgãos de saúde pública indica que o impacto econômico da depressão — via absenteísmo e perda de produtividade — é vasto. Tratar a depressão feminina com o rigor científico que o tema exige é, portanto, uma questão de saúde pública e de economia nacional.
Conclusão e perspectivas futuras
O avanço das pesquisas genéticas promete revolucionar a forma como a sociedade encara as doenças mentais. Ao reconhecer que a carga genética para depressão é mais alta em mulheres, a medicina caminha para um futuro onde o DNA poderá guiar a escolha do medicamento com maior taxa de sucesso, reduzindo o tempo de sofrimento do paciente. O foco agora se volta para a integração desses dados em protocolos clínicos acessíveis por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) e de convênios particulares.