Antes restritas à elite, cirurgias plásticas ficam acessíveis a mais brasileiros

Com o Brasil entre os maiores mercados de cirurgia plástica do mundo, novos modelos de gestão, financiamento e ganho de escala ampliam o acesso aos procedimentos. Foi observando essa transformação que um médico decidiu expandir sua atuação para além do consultório e apostar em um modelo voltado à democratização da especialidade

cirurgia plástica
Foto: Pexels

Dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) mostram que os procedimentos estéticos realizados globalmente se aproximaram de 38 milhões em 2024, consolidando um crescimento expressivo nos últimos anos. O Brasil permanece entre os maiores mercados mundiais da especialidade, impulsionado por uma demanda crescente por procedimentos estéticos e reparadores.

Mais do que um fenômeno ligado à aparência, a expansão da cirurgia plástica reflete uma mudança comportamental mais ampla. Especialistas observam o avanço da chamada “economia da autoestima”, em que consumidores destinam uma parcela crescente da renda a produtos e serviços ligados à imagem, bem-estar, longevidade e autopercepção.

Foi observando essa transformação que o médico e empresário Maxwell Castro decidiu seguir um caminho pouco convencional. Após anos de atuação clínica, ele passou a investir na construção de um modelo voltado à ampliação do acesso à cirurgia plástica no Brasil.

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“Percebi que existia uma demanda reprimida enorme. Muitos pacientes buscavam cirurgia plástica por questões de autoestima, qualidade de vida ou até reparação funcional, mas não encontravam um caminho acessível para isso”, afirma.

O médico Maxwell Castro

O médico Maxwell Castro

Embora frequentemente associada à estética, a especialidade também desempenha papel importante na saúde e na qualidade de vida. Reconstruções mamárias após o câncer, correções decorrentes de grandes perdas de peso, deformidades congênitas e procedimentos reparadores após acidentes fazem parte da rotina dos cirurgiões plásticos.

Essa visão foi amplamente defendida por Ivo Pitanguy, uma das maiores referências mundiais da especialidade, que enxergava a cirurgia plástica não apenas sob a ótica da aparência, mas também pelo impacto sobre autoestima, confiança e reinserção social.

A partir dessa percepção, Maxwell estruturou um modelo baseado na integração entre médicos especialistas, hospitais, fornecedores e gestão operacional. Na prática, os cirurgiões permanecem focados na assistência ao paciente, enquanto a operação centraliza negociações, protocolos, atendimento e soluções de financiamento.

Segundo ele, a padronização dos processos gera ganhos de eficiência capazes de ampliar o acesso sem interferir na autonomia técnica dos profissionais.

“Eu percebi que poderia impactar muito mais pessoas ajudando a construir uma operação que ampliasse o acesso à cirurgia plástica do que atuando exclusivamente dentro do consultório. O desafio deixou de ser apenas médico e passou a ser também de gestão, escala e acesso.”

A estratégia acompanha um movimento já observado em áreas como odontologia, medicina diagnóstica e oftalmologia.

“O médico não precisa assumir toda a complexidade operacional do negócio. Quando você organiza a cadeia de fornecimento, ganha eficiência, melhora a previsibilidade dos custos e consegue oferecer condições mais acessíveis ao paciente sem interferir na autonomia técnica do cirurgião”, explica.

Para Maxwell, a transformação também pode ser observada no perfil dos pacientes.

“Há alguns anos, a procura costumava estar mais concentrada em mulheres que buscavam corrigir uma insatisfação específica. Hoje observamos um público muito mais diverso, incluindo homens, pacientes que passaram por cirurgia bariátrica, pessoas preocupadas com envelhecimento saudável e pacientes que buscam resultados discretos e naturais.”

A tendência acompanha mudanças observadas internacionalmente. Procedimentos voltados ao rejuvenescimento e à preservação das características individuais ganham espaço, enquanto resultados excessivamente artificiais perdem apelo. Cresce a busca por intervenções que valorizem naturalidade, harmonia facial e qualidade de vida.

Ao mesmo tempo, a expansão do crédito, o parcelamento dos procedimentos e a profissionalização da gestão das clínicas têm contribuído para ampliar o acesso ao setor.

Na avaliação de Maxwell, a cirurgia plástica vive hoje um processo semelhante ao que transformou a odontologia brasileira nas últimas décadas.

“Durante muito tempo, determinados tratamentos odontológicos eram vistos como algo restrito a uma parcela pequena da população. Com organização, escala e profissionalização, eles passaram a alcançar muito mais pessoas. Vejo um movimento parecido acontecendo na cirurgia plástica, sempre com a responsabilidade e os critérios de segurança que a especialidade exige.”

O grupo projeta alcançar cerca de 50 unidades distribuídas pelo país nos próximos anos, chegando não apenas às capitais, mas também a cidades de médio porte que historicamente tiveram menor oferta de serviços especializados.

“A cirurgia plástica deixou de ser vista exclusivamente como um luxo. Hoje ela está inserida em uma conversa maior sobre autoestima, bem-estar, saúde e qualidade de vida. O desafio é garantir que essa ampliação do acesso aconteça de forma responsável e segura.”

Especialistas alertam, porém, que democratização não pode ser confundida com banalização. A ampliação do acesso exige critérios rigorosos de segurança, qualificação profissional, estrutura hospitalar adequada e avaliação individualizada de cada paciente.

“Democratizar não significa banalizar. Significa ampliar o acesso mantendo segurança, qualidade e responsabilidade médica. O crescimento sustentável do setor depende desse equilíbrio”, conclui Maxwell.

Em um mercado em expansão, a combinação entre excelência médica, eficiência operacional e acessibilidade tende a moldar os próximos capítulos da cirurgia plástica no Brasil.