Guia prático para ajudar alguém viciado em sites de apostas

O vício em jogos online não afeta apenas o bolso, mas destrói vínculos. Especialistas explicam como abordar o assunto sem julgamentos, impor limites financeiros e encaminhar o dependente para o tratamento profissional adequado

Imagem ilustrativa para guia que ajuda viciados em apostas
Foto: Freepik

O cenário das apostas no Brasil e no mundo mudou drasticamente nos últimos anos. O que antes exigia um deslocamento físico agora está a um toque de distância no smartphone. No entanto, essa facilidade de acesso trouxe um aumento alarmante nos casos de transtorno do jogo — uma condição médica reconhecida que afeta a saúde mental, as finanças e os vínculos familiares.

Resumo

  • O diagnóstico: o primeiro passo para ajudar é reconhecer que o jogo compulsivo é uma doença, não falta de caráter ou de inteligência.

  • A abordagem: conversas devem ser feitas em momentos de calma, focando no impacto emocional e não apenas nas perdas financeiras.

  • O limite: ajudar não significa pagar as dívidas do jogador; isso muitas vezes alimenta o ciclo. O apoio deve ser emocional e logístico (bloqueio de sites, busca por médicos).

  • O autocuidado: quem ajuda também precisa de suporte. Grupos como o Jog-Anôn (para familiares) são essenciais para evitar o esgotamento de quem está na rede de apoio.

Diferente de outras dependências, o vício em apostas é muitas vezes um “vício escondido”. Não há sinais físicos óbvios como olhos vermelhos ou fala arrastada, mas as consequências podem ser devastadoras. Identificar o problema precocemente é o passo fundamental para a recuperação.

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Como identificar o problema

Especialistas em saúde mental apontam que o vício raramente se resume apenas ao dinheiro. Ele se manifesta em comportamentos específicos:

  • Preocupação constante: o indivíduo passa boa parte do dia planejando a próxima aposta ou pensando em como recuperar o dinheiro perdido.

  • Aumento das apostas: a necessidade de apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma excitação — um fenômeno de tolerância similar ao das drogas.

  • Perda de controle: tentativas repetidas e fracassadas de parar ou reduzir o tempo dedicado ao jogo.

  • Impacto social: mentir para familiares sobre a extensão das perdas ou pedir empréstimos para cobrir dívidas de apostas, comprometendo o sustento básico.

O cérebro sob o efeito das bets

A ciência explica que o jogo patológico altera a neuroquímica do cérebro. Cada aposta (especialmente a “quase vitória”) libera uma descarga de dopamina no sistema de recompensa. Com o tempo, o cérebro torna-se menos sensível a prazeres comuns da vida, como uma refeição saborosa ou um encontro com amigos, passando a exigir o estímulo do jogo para funcionar minimamente bem.

O caminho para a recuperação

Se você ou alguém que você ama apresenta esses sinais, a ação imediata é necessária. Aqui estão os passos recomendados:

  1. Bloqueio de acesso: utilize as ferramentas de “autoexclusão” oferecidas pelas plataformas de apostas e instale softwares que bloqueiam sites de jogos no celular e computador.

  2. Transparência financeira: entregue o controle das finanças a uma pessoa de confiança temporariamente. O acesso livre ao dinheiro é o maior gatilho para a recaída.

  3. Busca de ajuda profissional: o transtorno do jogo responde bem à terapia cognitivo-comportamental, que ajuda a identificar os gatilhos emocionais.

  4. Grupos de apoio: instituições como os Jogadores Anônimos (JA) oferecem uma rede de suporte essencial, baseada no compartilhamento de experiências e na mútua ajuda sem julgamentos.

Principais instituições e canais de apoio oficial no país:

1. Grupos de mútua ajuda

Estes grupos seguem a filosofia dos 12 passos e são fundamentais para o suporte emocional contínuo, tanto para o jogador quanto para a família.

  • Jogadores Anônimos (JA):

    • O que é: irmandade de homens e mulheres que compartilham experiências para resolver o problema comum do jogo.

    • Site oficial: jogadoresanonimos.com.br

    • Linha de ajuda (São Paulo): (11) 2367-7771 / (11) 99571-6929

    • Reuniões: presenciais em diversas capitais e reuniões online diárias.

  • Jog-Anôn (para familiares e amigos):

    • O que é: grupo voltado especificamente para as pessoas que convivem com um jogador compulsivo e sofrem as consequências emocionais e financeiras.

    • Site oficial: joganonsaopaulo.com.br


2. Centros de Tratamento Especializado (referência médica)

Instituições ligadas a universidades que oferecem tratamento multidisciplinar (psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais).

  • PRO-AMJO (Programa Ambulatorial do Jogo – IPq USP):

    • O que é: parte do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. É o principal centro de pesquisa e tratamento de ludopatia no Brasil.

    • Site: amjo.org.br

    • Contato: (11) 2661-7805

  • PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes – UNIFESP):

    • O que é: serviço da Universidade Federal de São Paulo que atende diversas dependências, incluindo o jogo patológico.

    • Site: proad.unifesp.br

    • Contato: (11) 5576-4990


3. Rede pública de saúde (SUS)

O tratamento para o vício em jogos também está disponível na rede pública de saúde mental.

  • CAPS (Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas):

    • O que fazer: embora o foco seja substâncias, os CAPS ad estão preparados para atender transtornos de controle de impulsos. O cidadão deve procurar a unidade mais próxima de sua residência.

    • Como localizar: através do site da Secretaria de Saúde de cada município ou pelo app Meu SUS Digital.


4. Canais de prevenção e bloqueio (ferramentas práticas)

Para quem precisa de medidas imediatas de “barreira” contra os aplicativos e sites.

  • Autoexclusão: praticamente todas as casas de apostas regulamentadas possuem o botão de “Autoexclusão” no perfil do usuário, que bloqueia o acesso por períodos de 6 meses a definitivo.

  • Aparelhos e softwares de bloqueio: aplicativos como BetBlocker (gratuito) ou Gamban permitem bloquear o acesso a milhares de sites de apostas em todos os dispositivos da casa.