A conjuntivite, inflamação que causa olhos vermelhos, irritados e lacrimejando, tem registrado um preocupante aumento de casos e surtos em diversas cidades brasileiras, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Especialistas alertam para a recorrência da doença em períodos de calor intenso e a necessidade de medidas preventivas rigorosas para conter a disseminação.
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O que aconteceu
- A conjuntivite tem mostrado um aumento significativo de casos em municípios brasileiros, especialmente nas regiões Sudeste e Sul.
- A doença se manifesta em três tipos principais — viral, bacteriana e alérgica — cada um com características, contágio e tratamentos específicos.
- A automedicação e a falta de higiene adequada são apontadas por médicos como fatores de risco que podem agravar quadros ou facilitar a transmissão.
O problema pode ocorrer ao longo de todo o ano, mas tende a ser mais frequente em períodos de calor intenso. As altas temperaturas favorecem a proliferação de microrganismos, e a baixa umidade do ar reduz a lubrificação ocular, tornando os olhos mais vulneráveis. Além disso, o aumento das aglomerações em determinadas épocas facilita a transmissão da doença.
Nos últimos anos, diversos municípios brasileiros registraram surtos de conjuntivite. Na cidade de São Paulo, por exemplo, foram notificados 71 surtos e 180 casos em 2024, segundo levantamento da Secretaria Municipal da Saúde. Em 2025, esse número subiu para 102 surtos e 250 casos. Estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro também registraram aumento nas ocorrências, indicando uma preocupante tendência nacional.
Como prevenir a conjuntivite?
Medidas simples de higiene ajudam a reduzir drasticamente o risco de transmissão. Evitar coçar os olhos, lavar as mãos com frequência e higienizar corretamente objetos de uso pessoal — como toalhas, travesseiros, lentes de contato e maquiagens — são cuidados importantes para conter a disseminação da conjuntivite.
Crianças têm maior probabilidade de desenvolver conjuntivite viral ou bacteriana devido ao contato próximo em ambientes como escolas e creches. “Esses germes se espalham facilmente em superfícies infectadas e mãos não lavadas, especialmente em áreas de contato próximo”, afirma a oftalmologista Claudia Faria, do Einstein Hospital Israelita.
Atenção aos sintomas e perigos da automedicação
Acontece que outras condições médicas possivelmente mais graves podem provocar o chamado “olho vermelho”, como glaucoma, uveíte (inflamação da camada vascular do olho), ceratite (inflamação da córnea), toxicidade ocular e infecções intraoculares. Daí a importância de uma avaliação médica, que permite identificar a causa do problema e orientar o tratamento mais adequado.
“Os pacientes devem ser advertidos a não se automedicarem, uma vez que o uso incorreto e indiscriminado de medicações oculares, como esteroides e antibióticos, pode levar a efeitos colaterais deletérios e, em alguns casos, graves”, alerta a oftalmologista Maria Auxiliadora Monteiro Frazão, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
Quais os tipos de conjuntivite?
A conjuntivite viral é o tipo mais comum da doença. Geralmente provoca ardência, vermelhidão, fotofobia e secreção aquosa, podendo também causar aumento dos linfonodos localizados à frente das orelhas. Na maioria das vezes, o quadro é provocado pelo adenovírus, microrganismo responsável por infecções respiratórias, como o resfriado. “Menos frequentemente, a conjuntivite viral pode ser causada por vírus mais graves, como os da Covid e do sarampo”, relata Faria.
A forma viral é altamente contagiosa, sobretudo nos primeiros cinco a sete dias, período em que os sintomas costumam ser mais intensos. A transmissão ocorre pelo contato direto com secreções oculares ou por meio de superfícies contaminadas, como mãos, toalhas, travesseiros e objetos compartilhados. Por isso, a higiene pessoal, especialmente das mãos, deve ser rigorosa e frequente.
O quadro pode durar até 15 dias e, em geral, se resolve espontaneamente. Não existe medicamento específico para eliminar o vírus; o tratamento é voltado ao alívio dos sintomas e geralmente inclui compressas frias e lubrificantes oculares.
Conjuntivite bacteriana
A conjuntivite bacteriana, menos frequente que a viral, também é contagiosa. Caracteriza-se por vermelhidão, dor ocular e secreção espessa de coloração amarela ou esverdeada, além de pálpebras que podem ficar grudadas ao despertar. Embora possa afetar os dois olhos, muitas vezes começa em apenas um deles.
“Pacientes com conjuntivites bacterianas costumam apresentar algum fator predisponente, como obstrução crônica das vias lacrimais, uso frequente de colírios derivados de esteroides ou antibióticos e olho seco”, explica o oftalmologista Sérgio Felberg, chefe do setor de córnea e doenças externas da Santa Casa de São Paulo. O tratamento inclui colírios ou pomadas antibióticas, que devem ser prescritos por um médico especialista.
Após o início da medicação adequada, a transmissão tende a diminuir. É crucial seguir a prescrição médica para evitar complicações e garantir a eficácia do tratamento.
Conjuntivite alérgica
A conjuntivite alérgica afeta pessoas com histórico de outras condições alérgicas, como rinite, dermatite ou asma. Não é contagiosa e surge como reação a substâncias presentes no ambiente, como pólen, pelos de animais, fumaça de cigarro, cloro de piscina e gases de escapamento de veículos. Os sintomas mais comuns são coceira intensa, vermelhidão, lacrimejamento e inchaço nas pálpebras, frequentemente acompanhados de espirros.
O quadro pode persistir enquanto houver exposição ao agente desencadeador, podendo durar semanas ou até meses sem tratamento adequado. O controle envolve evitar o contato com o fator de origem da alergia, além do uso de colírios antialérgicos e, em alguns casos, corticoides prescritos por oftalmologista.