O ator David Harbour, conhecido pelo papel do xerife Hopper na série Stranger Things, falou recentemente sobre o diagnóstico de transtorno bipolar e o processo de tratamento que passou a integrar sua rotina após abandonar o consumo de álcool. As declarações foram dadas em entrevista ao site Future of Personal Health e trouxeram detalhes sobre sobriedade, acompanhamento profissional e mudanças no dia a dia.
Segundo o ator, a interrupção do uso de bebidas alcoólicas, ainda na juventude, o levou a enfrentar questões emocionais que estavam mascaradas. Foi nesse período que ele iniciou a terapia de forma contínua e recebeu o diagnóstico do transtorno bipolar, condição caracterizada por oscilações intensas de humor e comportamento.
O relato ganhou repercussão internacional por expor um tema recorrente na saúde mental adulta, especialmente em pessoas que convivem por anos com sintomas sem diagnóstico preciso.
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Sinais e manifestações ao longo da vida adulta
De acordo com o terapeuta comportamental e neurocientista do comportamento Eduardo Rocha, em entrevista à IstoÉ, o transtorno bipolar costuma se manifestar ao longo de toda a vida e nem sempre é facilmente identificado. “Muitas vezes, a pessoa não tem consciência de que apresenta a condição, o que dificulta o diagnóstico e o início do tratamento”, explica.
Segundo o especialista, a bipolaridade é marcada por ciclos de alteração de humor, que podem alternar períodos de euforia intensa, conhecidos como episódios de mania, com fases de estabilidade ou depressão. “Essas mudanças costumam ser abruptas e podem durar semanas ou meses, intercaladas com momentos em que a pessoa mantém uma rotina considerada normal”, afirma.
Na vida adulta, os impactos se estendem a diferentes áreas do cotidiano. Alterações no padrão de sono, alimentação desregulada e negligência com cuidados pessoais são sinais frequentes. “É comum observar períodos de alta produtividade seguidos por fases de procrastinação e queda de rendimento”, diz Rocha.
O especialista também aponta efeitos diretos nos relacionamentos. “A pessoa pode apresentar isolamento social, dificuldade em lidar com críticas, desapego recorrente e oscilações no interesse por atividades profissionais e pessoais”, explica.
Tratamento contínuo e cuidados no dia a dia
O acompanhamento profissional contínuo é apontado como parte central do tratamento do transtorno bipolar. Segundo Eduardo Rocha, a associação entre medicação e terapia costuma apresentar melhores resultados. “Para transtornos de humor, o uso de estabilizadores de humor é frequentemente indicado, aliado a abordagens terapêuticas como a terapia cognitivo-comportamental”, afirma.
O especialista destaca que, em alguns casos, medicamentos antipsicóticos fazem parte do tratamento para evitar a evolução de pensamentos desorganizados. “O acompanhamento médico, junto com a terapia, é a forma mais eficaz de controle da condição”, explica.
O uso de álcool e outras substâncias aparece como um fator que pode dificultar tanto o diagnóstico quanto o controle do transtorno. “O álcool agrava quadros depressivos, pode intensificar episódios de euforia e reduz a eficácia dos medicamentos”, diz Rocha. Segundo ele, essas substâncias funcionam como gatilhos para a desestabilização do humor, prolongando períodos de crise.
Além da medicação, mudanças no estilo de vida fazem parte do controle a longo prazo. “Trabalhar o sono é o primeiro ponto. Depois vêm a alimentação equilibrada, a prática de atividade física e a redução de estimulantes como café e álcool”, afirma.
O monitoramento constante dos sinais iniciais de descompensação também é indicado. “Quando surgem insônia, alterações no ritmo de vida e mudanças abruptas de comportamento, é importante ajustar o tratamento para evitar agravamentos”, explica o especialista.
Ao relatar publicamente sua experiência, David Harbour detalhou que o investimento mais intenso na psicoterapia ocorreu apenas nos últimos anos, período em que passou a integrar o tratamento de forma mais estruturada à rotina profissional e pessoal.