O cenário terapêutico para o tratamento da obesidade e do sobrepeso atravessa uma transformação radical. A ascensão de medicamentos análogos do GLP-1, como o Ozempic (semaglutida) e o Mounjaro (tirzepatida), alterou a dinâmica da perda de peso global.
No entanto, o ritmo acelerado dessa redução tem provocado debates intensos no meio médico e acadêmico sobre os impactos metabólicos, estruturais e estéticos a longo prazo. O que antes era celebrado apenas pelo ponteiro da balança, hoje é analisado sob a ótica da qualidade da composição corporal.
Uso de fármacos: Medicamentos como Ozempic e Mounjaro aceleram a perda de peso, mas exigem acompanhamento.
Perda de massa muscular: O emagrecimento rápido sem exercício pode reduzir o metabolismo e causar flacidez.
Efeito estético: Aumenta a busca por cirurgias plásticas, como a abdominoplastia, para corrigir o excesso de pele.
Reeducação necessária: Especialistas reforçam que a medicação não substitui a mudança de hábitos para evitar o ganho de peso posterior.
A distinção entre perder peso e emagrecer
A popularização das “canetas” injetáveis trouxe à tona uma confusão conceitual comum entre os pacientes. Para o personal trainer e empresário Cássio Fidlay, existe uma diferença técnica fundamental que define o sucesso do tratamento. “Você não emagrece, você perde peso. Emagrecer é perder gordura e manter ou até ganhar massa muscular. Quando isso não acontece, a pessoa perde músculo, fica flácida e o metabolismo desacelera”, explica o profissional.
A dependência exclusiva do fármaco, sem o suporte do treinamento de força, é apontada como um dos erros estratégicos mais graves. Segundo Fidlay, a medicação atua no controle do apetite, mas não na preservação dos tecidos ativos do corpo.
O treinamento é fundamental para manter o metabolismo acelerado e garantir que o organismo funcione corretamente durante o déficit calórico acentuado: “Só a caneta não faz milagre. O treino é fundamental. Ele mantém e preserva a massa muscular.”
O ‘efeito Ozempic’ na cirurgia plástica
A rápida retração do volume corporal impede que a pele, em muitos casos, acompanhe a nova silhueta. Esse fenômeno tem gerado uma demanda sem precedentes nos consultórios de cirurgia plástica, o que o mercado convencionou chamar de “efeito Ozempic”. O cirurgião plástico Regis Ramos* relata um aumento considerável na busca por procedimentos reparadores após o uso desses fármacos.
Entre as queixas mais recorrentes apresentadas pelos pacientes estão a perda de volume facial — que confere um aspecto precocemente envelhecido —, a alteração na textura cutânea e a flacidez acentuada em regiões críticas.
De acordo com o médico, a pele não possui tempo hábil para se adaptar à redução drástica de medidas, resultando em dobras e excessos tegumentares.
Os procedimentos mais procurados para mitigar esses efeitos incluem:
Abdominoplastia: para remoção do avental de pele no abdome;
Lifting de braços e coxas: para corrigir a flacidez de membros;
Facelift: para restaurar o contorno facial perdido;
Mamoplastia de redução ou mastopexia: para reestruturar o tecido mamário.
O mito do efeito rebote e a sustentabilidade
Um dos maiores temores de quem utiliza as novas terapias é o retorno ao peso anterior após a interrupção do tratamento. Para os especialistas, o termo “efeito rebote” é frequentemente mal empregado. Cássio Fidlay pontua que a recuperação do peso não é uma falha intrínseca do medicamento, mas sim a ausência de uma reeducação comportamental durante o período de uso.
Ao cessar a aplicação do fármaco, o controle químico do apetite desaparece. Sem uma estrutura de hábitos consolidados e uma musculatura preservada, o paciente tende a retomar os padrões alimentares anteriores, resultando no reganho de gordura. Por meio de um planejamento multidisciplinar, que envolva endocrinologistas, nutricionistas e profissionais de educação física, é possível minimizar esses impactos negativos.
Riscos metabólicos
A pressa por resultados estéticos imediatos pode mascarar riscos à saúde. A perda acelerada de massa magra pode comprometer a densidade óssea e a função metabólica basal. A recomendação da comunidade médica é clara: a medicação deve ser encarada como uma ferramenta coadjuvante, e não como uma solução isolada.
O avanço tecnológico dos tratamentos para obesidade marca uma nova era na medicina, mas reforça uma máxima antiga do bem-estar: a saúde sustentável é construída por meio do equilíbrio entre intervenção científica e disciplina cotidiana. O acompanhamento rigoroso é a única via para garantir que o novo corpo seja, acima de tudo, um corpo saudável.