Um novo estudo propõe uma revolução no diagnóstico da endometriose: utilizar o sangue menstrual como ferramenta de identificação.
A iniciativa faz parte do estudo ROSE (sigla em inglês para “pesquisa vence a endometriose”), desenvolvido pelo centro de pesquisa do maior sistema de saúde de Nova York, nos Estados Unidos. O conceito é simples e direto, conforme explica a Drª Christine Metz, codiretora do estudo:
“Se o endométrio é eliminado no sangue menstrual todos os meses, por que não simplesmente coletamos o sangue menstrual, analisamos essas células e tecidos e os estudamos? É uma biópsia natural sem um procedimento invasivo.”
A pesquisadora reforça a preferência pelo termo fluido menstrual, já que, além de sangue, a menstruação contém células e pedaços do próprio tecido endometrial, sendo um material rico para análise.
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O custo do atraso e o tabu
A proposta de diagnóstico não invasivo surge como uma grande vantagem sobre o método atual, que é a cirurgia por videolaparoscopia. Embora exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal e ressonância magnética, sejam usados no Brasil e na Europa, muitas vezes as imagens são inconclusivas.
Esse cenário de incertezas e a necessidade de métodos invasivos contribuem para um dado alarmante: leva-se, em média, sete anos desde o início dos sintomas até o diagnóstico definitivo da endometriose.
A doença, em que o tecido que reveste o útero cresce fora do órgão, afeta uma em cada dez mulheres e pessoas com útero em idade reprodutiva, causando dores debilitantes e infertilidade. Contudo, ela é historicamente negligenciada pela ciência.
“Gastamos mais tempo estudando varíola, que é uma doença que já foi erradicada nos Estados Unidos, do que endometriose”, critica Metz. “A dor é muito subestimada. Eu só posso te dizer quantas pessoas riram de nós quando propusemos estudar o fluido menstrual.”
Mudança de mentalidade
Se o estudo ROSE avançar como esperado, o diagnóstico no futuro poderá depender menos de uma cirurgia e mais do uso de um coletor menstrual.
No entanto, para que isso se concretize, será necessário mais do que apenas investimento: é preciso uma mudança de mentalidade. A menstruação ainda é um tabu na sociedade, o que dificulta a pesquisa e o entendimento dos sintomas.
“Acredito que, quanto mais falarmos sobre saúde menstrual e os sintomas que as pessoas enfrentam, mais aprenderemos sobre nossa saúde e teremos mais conhecimento e ferramentas para lidar com problemas de saúde que afetam metade da população,” conclui a pesquisadora.