A manutenção de uma alimentação equilibrada e a prática regular de atividades físicas são, historicamente, pilares da longevidade e do bem-estar. No entanto, uma fronteira tênue separa o autocuidado da obsessão. Um novo estudo conduzido pela Universidade de Warwick, na Inglaterra, acende um alerta sobre o custo invisível do controle rigoroso do corpo: jovens aparentemente saudáveis, mas que vivem sob regimes de dietas restritivas e exercícios punitivos, apresentam índices significativamente maiores de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico na vida adulta.
Os dados, publicados em janeiro de 2026 na revista Current Psychology, utilizam como base o Millennium Cohort Study (MCS), uma robusta pesquisa britânica que acompanha milhares de indivíduos desde a infância. A análise cruzou informações coletadas entre 2018 e 2019 — quando os participantes tinham 17 anos — com novos dados obtidos em 2021, aos 20 anos, durante o auge da pandemia de Covid-19. Ao todo, 10.625 adolescentes responderam a questionários detalhados sobre hábitos alimentares, percepção corporal e saúde mental.
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A armadilha do controle rígido
A metodologia da pesquisa dividiu os jovens em quatro perfis principais. Os resultados demonstraram que o grupo com os melhores desfechos psicológicos não era o dos atletas de alto rendimento ou dos seguidores de dietas rigorosas, mas sim o de jovens com peso normal que não faziam dieta nem mantinham exercícios com foco exclusivo no emagrecimento.
Em contrapartida, tanto os jovens com sobrepeso quanto aqueles de peso considerado “normal” que controlavam rigidamente a alimentação relataram os piores indicadores de saúde mental. “Dieta equilibrada e exercício físico podem ser fatores protetivos, mas o que determina isso não é o comportamento em si, e sim a relação que o jovem tem com ele”, analisa Patrícia Cristina Gomes, psicóloga especialista em transtornos alimentares do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Segundo a especialista, quando o cuidado com o corpo é motivado pelo medo de engordar ou por uma autocrítica severa, o comportamento deixa de ser saudável.
“Nesse caso, o comportamento deixa de ser promotor de saúde e passa a funcionar como regulador de ansiedade e autoestima.”
Patrícia Cristina Gomes, psicóloga do Einstein
O estigma do peso e o neuroticismo
Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa é o papel do estigma. O estudo revelou que a sensação de ser vigiado, cobrado ou julgado pela aparência impacta a saúde mental independentemente do Índice de Massa Corporal (IMC). Jovens dentro do peso padrão, mas que internalizaram a pressão estética, sofrem com sintomas depressivos e uma percepção de valor pessoal dependente da balança.
Essa vigilância constante está ligada ao neuroticismo, um traço de personalidade que predispõe o indivíduo a emoções negativas e dificuldade em lidar com frustrações. Quando o corpo se torna o foco central de controle, qualquer variação estética é interpretada como um fracasso moral, alimentando um ciclo de culpa e punição.
Vulnerabilidade feminina e o papel das redes
As mulheres jovens figuram como o grupo mais vulnerável a esse sofrimento. A exposição a corpos editados e rotinas de “perfeição” nas redes sociais amplifica a insatisfação. De acordo com o estudo, os sinais de alerta para pais e cuidadores incluem mudanças bruscas no padrão alimentar, pular refeições ou a necessidade de “compensar” uma ingestão calórica com exercícios exaustivos.
A análise da Universidade de Warwick reforça que o cuidado com a saúde não pode ser reduzido a números. A terapia cognitivo-comportamental surge como uma ferramenta essencial para reconstruir a relação com o espelho, focando em valores que transcendem a aparência física. Para a comunidade científica e para as famílias, a mensagem é clara: a saúde mental deve caminhar ao lado da saúde física, e o rigor excessivo pode ser, ironicamente, o caminho mais curto para o adoecimento.
Com informações da Agência Einstein