Historicamente, o debate sobre o “prazo de validade” para a procriação foi centralizado quase exclusivamente no corpo feminino. Enquanto o esgotamento dos óvulos e os riscos da gravidez após os 40 anos são temas amplamente difundidos, a fertilidade masculina costumava ser vista culturalmente como uma fonte inesgotável. No entanto, o avanço da medicina genômica está redesenhando essa percepção, revelando que os homens também enfrentam um declínio qualitativo significativo com o passar das décadas.
Mutações genéticas nos espermatozoides aumentam de 2 a 3 vezes com o envelhecimento.
Cerca de 3% a 5% do esperma de homens acima de 50 anos carrega genes causadores de doenças.
Riscos estão associados a distúrbios de desenvolvimento e predisposição ao câncer infantil.
Paternidade tardia é uma tendência global que exige novos protocolos de aconselhamento genético.
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A falha na “máquina” de cópia
Diferente da mulher, que já nasce com todo o seu estoque de óvulos, o homem produz espermatozoides continuamente ao longo da vida. No entanto, essa produção constante é justamente o que torna o material genético vulnerável. A cada ciclo de divisão celular para a criação de novos espermatozoides, o DNA precisa ser “copiado”. Conforme o organismo envelhece, essa “máquina de xerox” biológica começa a apresentar falhas.
Estudos recentes indicam que o DNA dos espermatozoides sofre mutações cumulativas a cada ano. Em homens mais velhos, essas alterações são de duas a três vezes mais frequentes do que em jovens na casa dos 20 anos. Isso significa que, embora o homem possa ser fértil até idades avançadas, a integridade da informação genética que ele transmite é progressivamente comprometida.
Os números da paternidade 50+
As estatísticas são claras: pesquisadores estimam que entre 3% e 5% do sêmen de homens que ultrapassaram a barreira dos 50 anos contém mutações patogênicas. A maioria desses genes alterados está vinculada a distúrbios de desenvolvimento neuropsicológico — como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a esquizofrenia — além de uma maior predisposição a certos tipos de câncer pediátrico e condições raras, como a acondroplasia (nanismo).
“A ideia não é desencorajar a paternidade tardia, mas trazer transparência científica a um processo que, por muito tempo, ignorou a responsabilidade biológica masculina. A idade do pai é uma variável tão relevante quanto a da mãe na equação da saúde da prole.”
O viés de gênero na ciência
Por que demoramos tanto para olhar para o pai? A resposta reside em um viés histórico de pesquisa. Como a gestação ocorre no útero, a ciência concentrou seus esforços em monitorar as condições de saúde materna e a qualidade dos óvulos. O homem era visto apenas como o “fornecedor” de uma semente que, teoricamente, permanecia imutável.
Hoje, sabemos que o ambiente, o estilo de vida e, principalmente, o tempo, exercem uma pressão epigenética e genética sobre o esperma. O aumento da expectativa de vida e a mudança nas dinâmicas sociais — que levam casais a adiarem a chegada dos filhos para priorizar carreiras e estabilidade financeira — tornam esses dados essenciais para o planejamento familiar moderno.
O que fazer com essa informação?
A conscientização sobre o declínio da qualidade espermática não deve ser lida como um sinal de pânico, mas como um convite ao aconselhamento genético. Para homens acima dos 45 ou 50 anos que desejam ter filhos, existem protocolos de triagem pré-concepcional e técnicas de reprodução assistida, como o teste genético pré-implantacional (PGT), que podem ajudar a identificar anomalias cromossômicas ou mutações específicas antes da transferência do embrião.
Além disso, a medicina reforça que hábitos saudáveis — como a interrupção do tabagismo, controle do peso e redução do consumo de álcool — podem ajudar a mitigar o estresse oxidativo nas células germinativas, embora não consigam “zerar” o impacto natural do envelhecimento cronológico.
A ciência finalmente equilibra a balança: o relógio biológico não faz distinção de gênero. Reconhecer que a saúde do bebê começa muito antes da fecundação, no vigor genético de ambos os progenitores, é o primeiro passo para uma medicina reprodutiva mais justa e eficiente.