Primeiro celular aos 12 anos aumenta risco de depressão e obesidade, indica estudo

Pesquisa com 10 mil adolescentes revela que quanto mais cedo o celular entra na vida da criança, maiores são os riscos de distúrbios do sono, sedentarismo e vulnerabilidade emocional

Menino mexe em celular na frente dos pais
Foto: Unsplash

A decisão de dar o primeiro telefone celular a um filho deixou de ser apenas um marco social para se tornar uma questão de saúde pública. Um estudo robusto, que acompanhou 10 mil jovens por seis anos e foi publicado na revista Pediatrics, concluiu que crianças de 12 anos que já possuem o aparelho apresentam sintomas depressivos mais acentuados, dormem menos e têm maior propensão à obesidade do que aquelas que ainda não têm o dispositivo.

  • Fator idade: o estudo inova ao mostrar que a idade em que o celular é adquirido importa tanto quanto o tempo total de tela.

  • Riscos ampliados: ter um smartphone aos 12 anos foi associado a um risco 30% maior de depressão, 40% de obesidade e 60% de distúrbios do sono.

  • Média precoce: a idade mediana para o primeiro celular no grupo estudado foi de 11 anos; aos 14 anos, 89% dos adolescentes já possuíam o aparelho.

  • Impacto no desenvolvimento: o uso precoce interfere na maturação do córtex pré-frontal e na consolidação de hábitos saudáveis entre os 8 e 12 anos.


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Para a pediatra Quíssila Neiva Batista, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, o smartphone atua como um “amplificador” de vulnerabilidades. Embora a relação seja complexa e multifatorial — não podendo ser reduzida a uma relação de causa e efeito direta —, o aparelho compete diretamente com processos biológicos fundamentais.

A armadilha da dopamina no neurodesenvolvimento

A infância tardia (8 a 12 anos) é um período crítico para a formação do sistema de autorregulação emocional. A introdução do smartphone expõe o cérebro em formação a estímulos dopaminérgicos constantes e imediatos. “Quanto mais cedo isso acontece, maior a chance de criar uma dependência comportamental e desorganizar a rotina antes que ela esteja consolidada”, explica a Dra. Quíssila.

O estudo aponta que os impactos negativos surgem mesmo quando o uso não é considerado excessivo, embora a média de tempo de tela entre os jovens analisados já ultrapassasse as cinco horas diárias — valor muito acima do recomendado pelas autoridades de saúde.

Recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Para evitar que o ambiente digital permanente do celular prejudique o sono e a atividade física, a SBP estabelece limites claros de tempo de tela (TV, tablets e celulares):

Faixa EtáriaLimite Diário Recomendado
2 a 5 anosAté 1 hora (com supervisão)
6 a 10 anosEntre 1 e 2 horas
11 a 18 anosEntre 2 e 3 horas

“Os smartphones não devem ser tratados como um passo inevitável, mas como uma ferramenta que exige maturidade para ser usada com segurança.”

Quíssila Neiva Batista, pediatra do Einstein Goiânia

Estratégias para os pais

Especialistas sugerem que a transição para o mundo digital seja gradual. Tablets e televisões são preferíveis ao smartphone por serem menos portáteis e dificultarem o uso “escondido” ou permanente. Algumas diretrizes práticas incluem:

  1. Quarto livre de telas: Proibir o uso de aparelhos no quarto durante a noite para proteger o ritmo circadiano.

  2. Internet restrita: Optar por aparelhos com controle parental rígido e acesso limitado à web em idades precoces.

  3. Prioridade ao presencial: Estabelecer que atividades físicas e sociais tenham precedência absoluta sobre o entretenimento digital.

Com informações da Agência Einstein