A ciência nunca esteve tão presente nas redes sociais, e, ao mesmo tempo, nunca foi tão tensionada. Em meio a promessas rápidas, protocolos universais e soluções que viralizam com facilidade, conceitos complexos da biologia passaram a ser simplificados ao extremo, muitas vezes de forma equivocada. Termos como inflamação, cansaço crônico e saúde metabólica se tornaram rótulos genéricos, usados para explicar quase qualquer desconforto cotidiano.
É nesse cenário que se destaca o trabalho da bióloga e divulgadora científica Mari Krüger, criadora de conteúdo que soma mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais. Com uma comunicação que une ciência, humor e criatividade, ela se tornou uma das principais vozes no combate à desinformação em saúde, especialmente aquela travestida de bem-estar.
Formada em biologia e com experiência também nas artes, Mari Krüger começou a produzir conteúdo durante a pandemia, quando percebeu o volume crescente de informações equivocadas circulando justamente no momento em que as pessoas mais buscavam respostas sobre saúde e imunidade. O que começou como curiosidade acadêmica logo se transformou em um compromisso com a divulgação científica responsável.
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Quando todo mundo está “inflamado”, mas ninguém sabe explicar por quê
Um dos principais alvos da crítica de Mari Krüger é a banalização do termo inflamação. Hoje, sintomas como cansaço persistente, baixa energia e dificuldade para emagrecer são frequentemente atribuídos a uma suposta “inflamação silenciosa”, como se isso fosse um diagnóstico por si só.
Segundo a bióloga, o problema está na ausência de critério científico. Falar em inflamação exige identificar marcadores inflamatórios, vias metabólicas envolvidas e contexto clínico. Na prática, porém, o termo passou a funcionar como um guarda-chuva genérico para sintomas inespecíficos, criando a ilusão de que o problema foi identificado quando, na verdade, nada foi investigado.
Sintomas semelhantes podem ter causas completamente diferentes – desde distúrbios do sono e alimentação inadequada até alterações hormonais ou doenças em estágio inicial. Reduzir tudo a um único rótulo abre espaço para tratamentos inadequados e para a próxima etapa desse ciclo: a venda de soluções prontas.
Mari Krüger: a promessa da solução fácil e o risco de adiar o diagnóstico
Na esteira da inflamação, multiplicaram-se produtos e protocolos vendidos como resposta universal: shots “anti-inflamatórios”, suplementos sem evidência científica e rotinas padronizadas que prometem melhorar sono, energia, digestão e emagrecimento ao mesmo tempo.
Embora ingredientes como cúrcuma, limão e gengibre sejam alimentos nutritivos, Mari Krüger chama atenção para a expectativa criada em torno deles. Esses itens não substituem diagnóstico nem tratamento e dificilmente resolverão sintomas complexos sozinhos.
O risco maior, segundo ela, é o atraso na investigação clínica. Ao investir tempo e dinheiro em soluções genéricas, muitas pessoas deixam de procurar ajuda profissional e acabam mascarando sinais importantes. Quando finalmente buscam avaliação adequada, o problema pode estar mais avançado, com impacto direto nas possibilidades de tratamento.
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Cansaço extremo não é normal, apenas se tornou comum
Outro ponto central da discussão é a normalização do cansaço. Em uma sociedade que valoriza produtividade constante, viver exausto passou a ser quase um estado permanente. Do ponto de vista biológico, porém, isso não deveria ser tratado como normal.
Cansaço extremo é um sinal de alerta. Entre os principais fatores estão a privação de sono, o excesso de estímulos digitais, jornadas extensas de trabalho e a falta de recuperação adequada. Ainda assim, o caminho mais comum nas redes não é investigar causas, mas buscar atalhos.
O sono, um dos pilares mais negligenciados da saúde, costuma ser o primeiro a ser ignorado. Dormir entre seis e oito horas, em ambiente escuro e com qualidade, é essencial para processos metabólicos, hormonais e cognitivos. Mesmo assim, muitas pessoas pulam essa etapa básica e recorrem diretamente à suplementação.
Ritmo biológico, noite e produtividade
A ideia de que algumas pessoas seriam “naturalmente noturnas” também aparece com frequência nas redes. Mari reconhece que existem variações individuais, com pessoas mais matutinas ou mais vespertinas, mas reforça que seres humanos são biologicamente diurnos.
Trocar o dia pela noite de forma sustentada tende a bagunçar o ritmo circadiano e comprometer saúde e desempenho. Trabalhadores noturnos, por exemplo, frequentemente sofrem as consequências desse desajuste e precisam adotar estratégias de redução de danos, como escurecer completamente o ambiente ao dormir.
O corpo humano não foi projetado para funcionar no escuro — e isso se reflete desde o metabolismo até a digestão. Ignorar esse relógio interno cobra um preço ao longo do tempo.
Melatonina: natural não significa inofensiva
A melatonina se tornou um dos suplementos mais populares entre pessoas que relatam dificuldade para dormir. O fato de ser vendida livremente e associada à ideia de “natural” contribuiu para seu uso indiscriminado.
Segundo Mari, a evidência científica mais robusta para a melatonina está relacionada ao jet lag e a alguns distúrbios específicos do sono, sempre com indicação médica. Além disso, os produtos disponíveis nas prateleiras costumam ter dosagens baixas justamente para permitir a venda sem prescrição, o que nem sempre se traduz em efeito terapêutico real.
Mesmo quando não provoca grandes efeitos colaterais, a automedicação pode mascarar o problema de base. A pessoa até dorme um pouco melhor, mas não trata a causa da insônia, prolongando o ciclo de frustração e atraso no cuidado adequado.
Proteína em tudo — e o básico ficando para trás
Outro fenômeno observado por Mari é a adição de proteína a praticamente todos os produtos, inclusive à água. Para ela, trata-se mais de uma estratégia de marketing do que de uma necessidade nutricional real da população brasileira.
No Brasil, é raro haver deficiência proteica na população geral. O que aparece com muito mais frequência é a baixa ingestão de fibras, consequência do consumo insuficiente de frutas, vegetais e grãos. A alimentação tradicional brasileira, quando equilibrada, já fornece proteína suficiente por meio da combinação clássica de arroz, feijão e outras fontes alimentares.
Produtos proteicos podem ter papel estratégico em contextos específicos, como para pessoas com metas elevadas de hipertrofia ou dificuldades logísticas para se alimentar adequadamente. Ainda assim, devem ser usados com critério. Quando até a água passa a carregar promessa funcional, o básico se perde.
Divulgação científica e desinformação como problema de saúde pública
Para Mari Krüger, comunicar ciência nas redes sociais se tornou um trabalho de resistência. Conteúdos desinformativos costumam viralizar mais rápido por oferecerem respostas simples para problemas complexos, enquanto a ciência exige contexto, tempo e individualização.
Enquanto divulgadores científicos estudam, checam fontes e constroem roteiros responsáveis, conteúdos enganosos são produzidos em escala e velocidade muito maiores. Ainda assim, ela defende que a presença de profissionais qualificados nas redes é indispensável para equilibrar esse cenário.
Mais do que um incômodo digital, a desinformação em saúde já ultrapassou o campo das fake news pontuais e se consolidou como uma questão de saúde pública, com impacto direto nas decisões e na vida das pessoas.