A entrada em vigor da Resolução CFM nº 2.461/2026 reacendeu um debate antigo na medicina estética brasileira: os riscos associados ao uso do polimetilmetacrilato (PMMA). A norma, publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), restringe o uso da substância e reforça uma preocupação que especialistas vêm manifestando há anos sobre a segurança do material.
Para a dermatologista Dra. Luanna Caires Portela, membro da Câmara Técnica de Dermatologia do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Comissão de Ética e Defesa Profissional da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a decisão representa um importante avanço na proteção dos pacientes e no alinhamento da prática médica às evidências científicas mais recentes.
Formada em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com residências em Clínica Médica e Dermatologia pela mesma instituição, a especialista destaca que a restrição consolida um entendimento construído ao longo dos anos pela comunidade científica.
“A resolução consolida em norma aquilo que a ciência já vinha apontando há bastante tempo. Trata-se de uma decisão baseada em ampla revisão da literatura, no aumento dos registros de complicações e na necessidade de proteger os pacientes diante da existência de alternativas mais seguras”, afirma.
Links relacionados
Mais da metade dos brasileiros nunca foi ao dermatologista, revela estudo
A invasão do K-beauty: como a beleza coreana conquistou o Brasil
Por que o PMMA preocupa os especialistas?
O polimetilmetacrilato é um material sintético utilizado como preenchedor. Diferentemente de substâncias absorvíveis, ele permanece no organismo por tempo indeterminado após a aplicação.
Segundo Dra. Luanna, a principal preocupação está justamente nessa característica permanente.
“O PMMA é um preenchedor permanente e não absorvível. Uma vez injetado, permanece no organismo funcionando como um corpo estranho. Isso significa que ele pode desencadear reações imediatas ou tardias, incluindo inflamações crônicas, infecções, formação de granulomas, deformidades e, em casos graves, complicações sistêmicas que podem até ser fatais”, explica.
A especialista ressalta que o baixo custo do material também contribuiu para sua popularização ao longo dos anos, tornando-o atrativo em determinados contextos estéticos.
“Some-se a isso o baixo custo, que sempre o tornou comercialmente atraente, e temos a combinação ideal para o uso indevido”, pontua.
A principal diferença em relação ao ácido hialurônico
Enquanto o ácido hialurônico é absorvido gradualmente pelo organismo e pode ser revertido quando necessário, o PMMA permanece indefinidamente nos tecidos.
Para a dermatologista, essa é uma diferença fundamental para compreender os riscos envolvidos.
“A principal diferença está na reversibilidade. O ácido hialurônico pode ser metabolizado pelo organismo e, se necessário, dissolvido. Já o PMMA é permanente, não absorvível e permanece no corpo indefinidamente. Não existe um ‘desfazer’. Quando surge uma complicação anos depois, as opções de tratamento tornam-se muito mais limitadas”, afirma.
Complicações podem aparecer anos depois
Outro fator que preocupa a comunidade médica é a possibilidade de eventos adversos tardios, que podem surgir muito tempo após o procedimento.
“Muitas complicações são de difícil reversão ou mesmo irreversíveis, justamente porque o material não sai do corpo. Falamos de sequelas permanentes, deformidades, processos inflamatórios crônicos e, em situações extremas, necrose de tecido”, alerta.
Segundo ela, mesmo quando pouco frequentes, as complicações tardias costumam representar um grande desafio terapêutico.
“Quando a complicação se manifesta anos após a aplicação, o desafio terapêutico é ainda maior”, acrescenta.
A médica também chama atenção para a possibilidade de subnotificação. De acordo com ela, o número de ocorrências pode ser superior ao registrado oficialmente.
“O que observamos como especialidade é bastante preocupante. A própria Anvisa reconhece a existência de subnotificação, o que significa que o número real provavelmente é ainda maior. A crescente busca por procedimentos estéticos cada vez mais extremos ampliou esse cenário, e isso se reflete no aumento de pacientes que procuram correção de complicações tardias”, observa.
O que muda com a nova resolução?
A Resolução CFM nº 2.461/2026, em vigor desde 2 de junho, proíbe o uso médico do PMMA como preenchedor para fins estéticos ou reparadores. A única exceção prevista é o tratamento da lipodistrofia em pacientes com HIV/aids, realizado em unidades de alta complexidade credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Na avaliação da especialista, a medida representa um marco regulatório importante.
“A decisão foi baseada em ampla revisão da literatura, em dados nacionais crescentes de complicações e na experiência regulatória de outros países. Estudos brasileiros recentes ajudaram a reforçar a gravidade do problema e a necessidade de revisão do uso da substância”, afirma.
Entre os trabalhos que contribuíram para esse debate está uma série publicada no Journal of the American Academy of Dermatology, que reuniu 239 casos de complicações dermatológicas e nefrológicas relacionadas ao PMMA.
Para Dra. Luanna, a resolução também oferece mais clareza para os pacientes.
“A mensagem fica muito mais objetiva. Um médico que ofereça preenchimento estético com PMMA passa a cometer infração ética, e até mesmo anunciar o uso do material está proibido. Isso fornece ao paciente um critério objetivo para reconhecer uma prática irregular”, explica.
O debate continua
Apesar do avanço regulatório, a especialista ressalta que a resolução atua sobre a prática médica, mas não representa um banimento completo da substância.
“A comercialização do produto ainda não foi totalmente proibida pela Anvisa. Esse é um dos pontos que ainda preocupa parte da comunidade médica e científica, que defende o banimento completo da substância diante do número crescente de complicações graves descritas na literatura médica”, conclui.
Diante do avanço das evidências científicas e da disponibilidade de alternativas absorvíveis consideradas mais seguras, a nova regulamentação reforça uma tendência cada vez mais presente na medicina estética: a busca por procedimentos com maior previsibilidade, possibilidade de reversão e menor risco de complicações permanentes para os pacientes.