Nova pirâmide alimentar americana: veja mudanças polêmicas em relação à versão antiga

Atualização das diretrizes alimentares americanas muda a lógica da pirâmide, reduz o protagonismo dos carboidratos e gera controvérsias entre especialistas

Nova pirâmide alimentar americana: veja mudanças polêmicas em relação à versão antiga
A pirâmide alimentar é um instrumento didático criado para orientar a população sobre padrões alimentares mais saudáveis. Representada de forma gráfica, ela estabelece uma noção de proporcionalidade entre grupos alimentares, indicando quais alimentos devem ser consumidos com maior ou menor frequência ao longo do dia.
Após uma série de revisões nas diretrizes de saúde, o governo dos Estados Unidos divulgou uma nova recomendação alimentar, publicada oficialmente na última quarta-feira, 7, intitulada Dietary Guidelines for Americans 2025–2030. Durante a apresentação do novo material, o secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., fez um apelo direto: “Coma comida de verdade. Estamos encerrando a guerra às gorduras saturadas e iniciando a guerra ao açúcar.”
Logo ao se observar a nova ilustração, o primeiro ponto que chama atenção é a inversão da pirâmide alimentar.

Da base de carboidratos à pirâmide invertida

A pirâmide alimentar tradicional, criada nos anos 1990, tinha como base os carboidratos, como pães, massas, cereais e tubérculos — sinalizando que deveriam compor a maior parte da alimentação diária.
Na nova proposta, a pirâmide foi projetada de cabeça para baixo:
•os alimentos prioritários ocupam a parte mais ampla no topo visual
•os alimentos de menor prioridade aparecem na parte inferior
Entre as principais mudanças está o maior destaque para o consumo de proteínas, com recomendação diária entre 1,2 g e 1,6 g de proteína por quilo de peso corporal, priorizando fontes animais e incentivando sua presença em todas as refeições. Alimentos como bife, queijo e leite integral aparecem próximos ao topo da pirâmide.
Já os grãos integrais, que antes formavam a base, passaram a ocupar a menor porção da nova versão.

Gorduras: limite mantido, linguagem mais permissiva

Nas diretrizes anteriores, a orientação era limitar a ingestão de gorduras saturadas a menos de 10% do valor calórico total da dieta.
Esse limite foi mantido, mas especialistas observaram uma linguagem mais permissiva em relação às chamadas gorduras “naturais”, especialmente as de origem animal, como as presentes nas carnes, na manteiga e também nas gorduras vegetais, como o azeite de oliva.
Essa mudança de tom gerou debate, principalmente pelo maior destaque dado às carnes vermelhas e aos laticínios integrais.

Carboidratos e açúcar: foco na redução e no refinamento

Antes, as diretrizes não indicavam uma redução explícita de carboidratos, apenas reforçavam a preferência por fontes saudáveis, como frutas, vegetais e grãos integrais.
Na nova versão:
•mantém-se a recomendação de grãos integrais
•há ênfase na redução do consumo total de carboidratos
•açúcares adicionados e alimentos refinados passam a ser fortemente desencorajados.
A orientação é que esses itens sejam evitados ao máximo.

Frutas, legumes e verduras seguem como eixo central

No grupo de frutas, legumes e verduras, as recomendações permanecem como um pilar central da alimentação saudável, inclusive como estratégia para reduzir o consumo de ultraprocessados.
Antes, as diretrizes indicavam:
•2,5 xícaras de vegetais
•2 xícaras de frutas por dia
Agora, a recomendação foi simplificada para:
•3 porções de vegetais
•2 porções de frutas diariamente

Laticínios: do desnatado ao integral

Nas versões anteriores, os laticínios com baixo teor de gordura eram priorizados, como forma de reduzir a ingestão de gorduras saturadas.
Na nova diretriz, a orientação passou a incluir laticínios integrais, desde que **sem adição de açúcares, o que também gerou debates entre especialistas em saúde cardiovascular.

Açúcar adicionado: tolerância zero

Outro ponto que mudou foi a abordagem sobre açúcar adicionado.
Antes, a recomendação seguia parâmetros semelhantes aos da Organização Mundial da Saúde (OMS), permitindo até 10% do valor calórico total da dieta, a partir dos 2 anos de idade.
Agora, a diretriz afirma que:
•nenhuma quantidade de açúcar adicionado é considerada ideal
•a idade mínima para consumo foi atualizada para a partir dos 10 anos.

Ultraprocessados entram no centro do debate

Uma das mudanças mais explícitas foi a condenação direta dos alimentos ultraprocessados, algo que antes aparecia de forma menos clara.
A nova diretriz recomenda evitar produtos submetidos a processos industriais intensos, como:
•refrigerantes
•biscoitos
•refeições congeladas
•doces
•salgadinhos
•alimentos com aditivos químicos artificiais

Críticas à recomendação proteica

Apesar de não se tratar de uma dieta prescritiva, a recomendação elevada de proteína (1,2 a 1,6 g/kg/dia) gerou críticas de profissionais da saúde.
Especialistas alertam que esses valores não podem ser considerados universais, pois fatores como os listados abaixo devem ser avaliados individualmente:
•nível de atividade física
•função renal
•estado metabólico
•idade e condições clínicas
A OMS, por exemplo, recomenda uma ingestão média de 0,8 g de proteína por quilo de peso corporal ao dia, enquanto valores mais elevados (entre 1 g e 1,2 g/kg) são indicados apenas em situações específicas, como hipertrofia, sarcopenia ou menopausa.

Carne vermelha e riscos à saúde

Outro ponto de controvérsia foi o destaque dado à carne como principal fonte de proteína. Segundo a OMS e o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o consumo de **carne vermelha não deve ultrapassar 500 g por semana, devido ao aumento do risco de doenças, incluindo câncer.

Preocupação cardiovascular

Mesmo mantendo o limite de até 10% do valor calórico total para gorduras saturadas, a maior visibilidade da carne vermelha e dos laticínios integrais levantou alertas.
Além disso, o material menciona o uso de sal para temperar carnes, o que levou a Associação Americana do Coração a se posicionar em nota:
“Estamos preocupados com o fato de que as recomendações sobre o uso de sal para temperar e o consumo de carne vermelha possam, inadvertidamente, levar os consumidores a exceder os limites recomendados para sódio e gorduras saturadas, principais fatores de risco para doenças cardiovasculares.”
Segundo a entidade, laticínios com baixo teor de gordura ou isentos de gordura ainda seriam mais adequados do ponto de vista cardiovascular.

Orientações gerais, não substituição do cuidado individual

Por fim, especialistas reforçam que as novas diretrizes não configuram uma dieta, mas sim orientações gerais voltadas à melhora do comportamento alimentar da população.
Essas recomendações não substituem o acompanhamento individualizado, que deve ser feito por profissionais de saúde, levando em conta as particularidades de cada indivíduo.