A desigualdade social no Brasil deixa marcas antes mesmo de a criança começar a andar. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e apoiado pela Fapesp revela que bebês expostos à pobreza apresentam atrasos significativos no desenvolvimento motor já aos seis meses de idade. A descoberta acende um alerta sobre como a vulnerabilidade econômica atua como um freio biológico no potencial de crianças desde o berço.
A pesquisa avaliou lactentes utilizando a Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS), que analisa a movimentação espontânea, a força muscular e a postura. Os resultados mostraram que bebês de famílias de baixa renda pontuaram abaixo da média em comparação a crianças de contextos socioeconômicos mais favorecidos, evidenciando uma defasagem precoce em habilidades essenciais para o crescimento.
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O ambiente como fator determinante
Segundo os pesquisadores, o atraso não é apenas uma questão de genética ou biologia isolada, mas o resultado de um ambiente desfavorável. Entre os fatores críticos identificados estão:
Falta de espaço e segurança: Casas reduzidas impedem que o bebê seja colocado no chão para explorar movimentos;
Privação de estímulos: Menor acesso a brinquedos educativos e tempo de interação de qualidade com os cuidadores;
Estresse tóxico: A insegurança alimentar e a tensão familiar afetam o desenvolvimento neuropsicomotor da criança.
O custo do atraso a longo prazo
O desenvolvimento motor no primeiro ano de vida é a base para funções cognitivas futuras. Uma criança que demora a sustentar o tronco, sentar ou engatinhar pode enfrentar dificuldades posteriores na alfabetização e na coordenação motora fina.
Para os especialistas envolvidos no estudo, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas que não foquem apenas na sobrevivência (nutrição e vacinação), mas também na vigilância do desenvolvimento. “Intervir nos primeiros mil dias de vida é a maneira mais eficaz de romper o ciclo da pobreza e garantir equidade de oportunidades”, destacam.
Com informações da Agência Fapesp