Os medicamentos agonistas do receptor GLP-1 — popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras” — mudaram o rumo do tratamento da obesidade. Segundo a World Obesity Federation, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo, uma prevalência que triplicou desde 1975. As projeções são preocupantes: até 2035, a doença pode atingir cerca de 25% da população global, consolidando-se como uma das maiores crises de saúde pública da atualidade.
Nesse cenário, medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro ganham protagonismo. Ozempic e Wegovy têm como base a semaglutida, um agonista do hormônio intestinal GLP-1, que aumenta a saciedade, desacelera o esvaziamento gástrico e melhora a resposta à insulina. A diferença entre eles está na dose: o Wegovy foi desenvolvido com concentrações mais altas, voltadas especificamente para o tratamento da obesidade, enquanto o Ozempic utiliza doses menores da mesma molécula, com indicação principal para o diabetes tipo 2 — o que também explica sua menor potência na perda de peso. Já o Mounjaro, à base de tirzepatida, atua de forma mais ampla: é um agonista duplo (GLP-1 + GIP), o que potencializa os efeitos metabólicos e a perda de peso.
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Durante o uso, os efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, refluxo, constipação, diarreia e distensão abdominal — sintomas que podem atingir cerca de 20% a 40% dos pacientes, especialmente no início do tratamento, como mostram estudos clínicos das classes (programas STEP e SURMOUNT). Em geral, são transitórios e refletem a adaptação do organismo. Em alguns casos, podem ocorrer ainda perda de massa magra (especialmente sem acompanhamento nutricional adequado), formação de cálculos biliares e, mais raramente, pancreatite.
Em termos de eficácia, os dados são consistentes: a semaglutida em doses para obesidade (Wegovy) promove uma perda média de cerca de 15% do peso corporal, enquanto a tirzepatida (Mounjaro) pode ultrapassar 20%, segundo estudos publicados no The New England Journal of Medicine. Já o Ozempic, por utilizar doses mais baixas da mesma molécula presente no Wegovy, tende a gerar reduções mais modestas, geralmente entre 5% e 10%.
Apesar dos resultados expressivos, o ponto crítico surge após a interrupção do tratamento. A obesidade é reconhecida como uma doença crônica — e, como tal, tende a exigir manejo contínuo. Estudos mostram que, ao suspender a medicação, parte significativa do peso perdido pode ser recuperada, especialmente na ausência de mudanças consistentes no estilo de vida.
Isso acontece porque o corpo não “interpreta” o emagrecimento como um benefício — mas como uma ameaça. Há uma resposta adaptativa: aumento da fome, redução do gasto energético e alterações hormonais que favorecem o reganho de peso. Um dos achados mais consistentes da literatura mostra que, para cada quilo perdido, o organismo pode aumentar o apetite em cerca de 100 kcal por dia, além de reduzir o gasto energético — um mecanismo biológico de defesa amplamente descrito em estudos metabólicos de longo prazo.
Essa resposta sustenta o conceito de “set point” metabólico, no qual o corpo tende a resistir à manutenção de um peso mais baixo, podendo levar meses — ou até anos — para se estabilizar em um novo patamar.
Na prática, isso significa que interromper o tratamento sem suporte adequado frequentemente leva ao reganho de peso — não por falta de disciplina, mas por uma resposta fisiológica esperada. Por isso, o acompanhamento multidisciplinar, com médico e nutricionista, deixa de ser coadjuvante e passa a ser central.
Mais do que nunca, a mensagem é clara: as canetas emagrecedoras são ferramentas potentes — mas não atuam isoladamente. Sem mudança de comportamento, o organismo tende a retomar o peso anterior. Em um cenário em que o corpo biologicamente “luta” para recuperar o que foi perdido, estratégia, acompanhamento e consistência deixam de ser diferenciais — e passam a ser condição para sustentar resultados no longo prazo.