Relógio biológico aos 35: o que a ciência diz sobre os riscos da maternidade tardia

Com um crescimento de quase 50% no congelamento de embriões no Brasil, o setor de reprodução assistida caminha para movimentar US$ 70 bilhões globais; especialistas alertam, porém, que a ciência não é garantia de maternidade tardia e evidencia abismos sociais

Maternidade tardia relógio biológico 35 anos
Foto: Freepik

O desejo de adiar a maternidade em nome da estabilidade profissional ou financeira criou um fenômeno sem precedentes no Brasil. Segundo dados recentes do SisEmbrio, sistema da Anvisa, o país congelou quase 545 mil embriões entre 2020 e 2024, um salto de 47,6%. Em 2024, o congelamento de óvulos atingiu a marca de 151,6 mil unidades, com a maioria das pacientes (57,1%) tendo 35 anos ou mais — a idade que se tornou o marco simbólico, embora não absoluto, do declínio reprodutivo.

Esse movimento transformou a biologia em um setor econômico robusto. Estimado em US$ 42,2 bilhões em 2023, o mercado global de serviços de fertilidade deve ultrapassar os US$ 70 bilhões na próxima década. Contudo, por trás dos números vultosos, especialistas do Hospital Israelita Albert Einstein e da Febrasgo fazem um alerta necessário: a tecnologia, apesar de avançada, ainda não é capaz de anular o envelhecimento celular, e o acesso a ela permanece restrito a uma elite econômica.

  • O limite dos 35: a probabilidade de gravidez natural cai de 30% aos 20 anos para menos de 10% aos 40. Fatores como endometriose e tabagismo podem acelerar esse processo.

  • A parcela masculina: estudos na Nature (2025) mostram que homens acima dos 50 anos apresentam um risco três vezes maior de mutações genéticas no esperma, desmistificando a ideia de fertilidade masculina eterna.

  • Ciência do óvulo: pesquisas na Nature Aging revelam que erros genéticos em óvulos ocorrem quando proteínas específicas (coesinas) caem abaixo de um limiar crítico, tornando a divisão celular vulnerável.

  • Ilusão de garantia: o congelamento de óvulos não assegura um bebê no futuro; o sucesso depende drasticamente da idade da mulher no momento da coleta.


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A engenharia do relógio biológico e os riscos gestacionais

A medicina tem avançado na compreensão da mecânica do envelhecimento ovariano. Diferente dos homens, as mulheres nascem com um estoque finito de óvulos que se degrada qualitativamente com o tempo. A partir dos 35 anos, aumenta a incidência de alterações cromossômicas, o que eleva o risco de abortos espontâneos e complicações como pré-eclâmpsia e diabetes gestacional.

“Muitas pessoas superestimam as técnicas de reprodução assistida, desconhecendo a limitação real dessas tecnologias para compensar o declínio natural”, aponta a ginecologista Ana Paula Beck, do Einstein. Além disso, marcadores de reserva ovariana, como o hormônio antimulleriano, têm sido banalizados: eles indicam a quantidade de óvulos, mas não são preditores de fertilidade natural em mulheres sem sintomas.

Desigualdade: o filtro do acesso

No Brasil, a reprodução assistida é um retrato da desigualdade geográfica e social. Dos 196 centros registrados, 65 estão concentrados em São Paulo. A falta de cobertura pelo SUS e pela maioria dos planos de saúde relega essas técnicas a uma minoria, criando o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama de “catástrofe financeira” para famílias que buscam o tratamento.

Essa barreira financeira torna a “escolha” da maternidade tardia um privilégio de classe. Enquanto empresas de tecnologia oferecem o congelamento de óvulos como benefício corporativo, a maioria das mulheres brasileiras enfrenta a pressão do mercado de trabalho sem qualquer rede de proteção para sua autonomia reprodutiva.

O cenário demográfico: o Brasil que encolhe

Apesar do boom nas clínicas de fertilidade, o impacto dessas técnicas na demografia nacional é estatisticamente pequeno. O Brasil atingiu sua menor taxa de fecundidade (1,55 filho por mulher), abaixo do nível de reposição. A demógrafa Laura Wong, da UFMG, estima que os nascimentos via reprodução assistida representem apenas cerca de 60 mil a 70 mil do universo total de 2,9 milhões de partos anuais.

O adiamento da maternidade é uma tendência consolidada pela urbanização e educação, mas o foco, segundo especialistas, não deve ser induzir nascimentos através da tecnologia, mas sim garantir direitos reprodutivos e compreender como a organização da vida moderna afeta as metas individuais de cada cidadão.

Com informações da Agência Einstein