A era das ‘supercanetas’: como novos fármacos estão mudando a luta contra a obesidade

Com a explosão de medicamentos como a tirzepatida e a semaglutida, o tratamento da obesidade deixa de ser uma questão de força de vontade para se tornar ciência de precisão; especialistas alertam para o retorno do culto à magreza e os riscos do uso estético

Obesidade
Foto: Pexels

A pedagoga Rayane Soares, de 30 anos, luta contra a balança desde a infância. “Meu pai nos abandonou quando eu tinha 8 anos, passei a comer compulsivamente desde então como uma forma de consolo”, recorda-se. Em 2023, após dar a luz ao primeiro filho, atingiu seu peso máximo, cerca de 200 kg. Até então já havia feito diversas dietas, mas o peso sempre voltava. A situação começou a melhorar, quando entendeu que a obesidade não era sua culpa, e sim uma doença crônica, que necessitava de atendimento multidisciplinar.

Recebi indicação médica para fazer cirurgia bariátrica, mas não tinha como pagar na época. Depois que meu primeiro filho nasceu, decidi que não podia mais ficar presa em casa. Comecei a fazer terapia, dieta com uma nutricionista e, apesar dos risos, academia”, conta Rayane. Ela também começou a postar sua jornada no Instagram e, em pouco tempo, virou influenciadora e fechou contratos com uma plataforma de emagrecimento, um aplicativo de atividades físicas e uma marca de suplementos.

Há alguns meses, após o desmame do segundo filho, Rayane ganhou um novo aliado ao tratamento, a tirzepatida. “Tinha preconceito com a medicação, inclusive conheci profissionais de saúde que também tem. Mas hoje sei o quanto me ajuda, especialmente na saciedade”, afirma a influencer, que de 2023 para cá, perdeu 63 kg.

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O relato individual de Rayane reflete uma realidade coletiva: de acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2025 (dados para o Brasil), 31% da população adulta apresenta obesidade e 37%, sobrepeso. A explosão mundial de novos fármacos utilizados no combate à doença, ou seja, dos agonistas do hormônio GLP-1 (como a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida), e os novos tratamentos que vem por aí podem transformar essa realidade em um futuro próximo.

É normal que exista uma euforia ao redor do tema. A obesidade é um problema grave para a saúde pública no mundo inteiro e, até pouco tempo, tínhamos poucas ferramentas farmacológicas eficazes disponíveis para tratá-la. Por isso, quando bem indicadas, essas novas medicações são potencialmente revolucionárias”, afirma o endocrinologista Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Benefícios além do peso

Segundo projeções do UBS, o mercado brasileiro de medicamentos à base de GLP-1 (que inclui Ozempic, Wegovy e Mounjaro, entre outras “canetas emagrecedoras”) deve dobrar de tamanho em 2026, aproximando-se de R$ 20 bilhões. O que, afinal, essas medicações têm de tão especial?

Originalmente criadas para combater o diabetes, as medicações agonistas do hormônio GLP-1 se mostraram eficazes também no tratamento de outras doenças. Liberado pelo organismo quando nos alimentamos, este hormônio está ligado à regulação do açúcar no sangue, à fome e à digestão. Além do controle da glicemia, ao “imitar” o GLP-1, um dos resultados diretos desse tipo de medicação é a perda de peso. Por essa razão, com o tempo e sob novos títulos, elas foram aprovadas também para combater a obesidade.

Desde a chegada da liraglutida, uma das primeiras versões dos agonistas do GLP-1, em meados dos anos 2000, ao lançamento de novas formulações, como a semaglutida e a tirzepatida, a partir de 2018, estudos científicos vêm demonstrando que os benefícios à saúde das chamadas canetas emagrecedoras vão além. Diversos estudos comprovaram que elas atuam também sobre o risco de eventos cardiovasculares, apneia do sono e síndrome dos ovários policísticos (SOP). Mais recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a indicação da semaglutida (Wegovy) para o tratamento da esteatose metabólica (gordura no fígado).

Esse conhecimento já tínhamos com a cirurgia bariátrica, que nos ensinou que uma perda de peso expressiva pode melhorar diversos sintomas da obesidade clínica (quando o acúmulo excessivo de gordura corporal causa disfunções ou limitações)”, explica o médico cirurgião Ricardo Cohen, head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC). O especialista chama a atenção ainda ao fato de que mesmo perdas de peso moderadas podem trazer benefícios.

Um famoso estudo que ficou conhecido como Select, por exemplo, avaliou os efeitos da semaglutida na redução de eventos cardiovasculares em pessoas com sobrepeso ou obesidade sem diabetes. Ainda que a média de perda de peso dos cerca de 8 mil participantes tenha ficado em torno de “apenas” 9,4%, como frisou Cohen, houve uma redução de 19% de mortalidade por todas as causas e de 28% em infarto do miocárdio.

A volta do culto à magreza?

A popularização dos agonistas do GLP-1 cresceu também entre pessoas que querem perder peso por motivos estéticos – o que fez os medicamentos sumirem das farmácias, apesar da obrigatoriedade de retenção de receita médica (desde junho de 2025) e do alto custo. Estaria o “efeito Ozempic” redefinindo o culto à magreza?

Para Daiana Rodrígues, diretora de dados e estratégia do Grupo In Press, que realizou um estudo de consumo sobre o tema, a resposta é sim. “O ‘efeito Ozempic’ não cria o culto à magreza, mas turbina e reposiciona esse ideal ao transformá-la em algo percebido como ‘mais atingível’, ainda que de forma desigual, se considerarmos aspectos como o acesso, por exemplo”, afirma Daiana Rodrígues. “A realidade é que a pressão pela magreza nunca desapareceu, mesmo com movimentos como o body positive. É um comportamento que perpassa a linha estética, e funciona também como símbolo de pertencimento”, acrescenta.

Na avaliação da especialista, esse reposicionamento já começa a influenciar a indústria alimentícia no Brasil, que passa a incorporar alimentos proteicos em seus portfólios – ainda que em menor escala do que nos Estados Unidos – em resposta a um dos principais desafios do emagrecimento rápido, ou seja, a perda de massa muscular.

Os tratamentos à base dessas medicações têm indicações médicas claras e o uso indiscriminado, sem acompanhamento médico, pode trazer riscos à saúde. Inclusive efeitos colaterais ainda desconhecidos, como destaca o diretor da Abeso, Rodrigo Lamounier. “Sabemos que essas medicações são eficazes e seguras, porém, não podemos esquecer que existem muitos fármacos que, anos depois, são retirados do mercado por efeitos adversos que ninguém esperava”, pontua Lamounier. Uma preocupação recente em relação aos agonistas do GLP-1 diz respeito aos riscos à saúde ocular, problema relatado por alguns pacientes, como o cantor britânico Robbie Williams – mas essa possível sequela ainda está sob investigação científica.

O que deve ser levado em conta na hora de aderir a tais medicações somente por questões estéticas. “Quem toma sem indicação médica, não terá os benefícios, somente os efeitos colaterais”, diz Ricardo Cohen, do HAOC.

O futuro do tratamento da obesidade

Como acontece com os demais tratamentos contra obesidade, medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro também geram reganho de peso quando interrompidos – o conhecido “efeito sanfona”. A nutricionista Patrícia Davidson destaca que uma das coisas que diferencia quem engorda de quem não recupera o peso após o tratamento é o acompanhamento multidisciplinar.

A medicação exige progressão, quando se mostrar necessária, ou manutenção com uma dose mais baixa. Além disso, o ‘desmame’ deve ser feito aos poucos. Por fim, nesse processo, o papel do nutricionista é fundamental para o paciente adquirir novos hábitos alimentares”, afirma a especialista, para quem a medicação deve ser apenas uma “ponte” para as transformações no estilo de vida.

Já o médico cirurgião Ricardo Cohen, do HAOC, salienta que a maioria dos portadores de obesidade clínica possivelmente terão de tratar a doença com o auxílio de medicações por toda a vida. “No caso de outros problemas crônicos, ninguém questiona se o paciente deve ou não manter a medicação”, afirma o especialista. “O que estamos estudando agora é a frequência, ou seja, se o uso diário, semanal ou até mesmo quinzenal, lembrando que um dos desafios das doenças crônicas é exatamente a adesão a partir do segundo ano de tratamento”, acrescenta Cohen.

Diante deste cenário, uma boa notícia aos pacientes que fazem uso dos agonistas do GLP-1 foi a aprovação da pílula do Wegovy em comprimidos pelo FDA, agência reguladora dos Estados Unidos. Há esperança também que a recente quebra da patente do Ozempic no Brasil abra caminhos tanto para a fabricação de genéricos quanto para a inclusão de tais medicamentos no SUS.

Além das formulações orais, a chegada de novas canetas também devem movimentar a indústria farmacêutica. Entre os destaques, está a retratrutida (agonista triplo que mimetiza a ação de três hormônios), que apresentou perda de até 28% do peso nos estudos. “Do ponto de vista social, porém, mais relevante do que a entrada de novas drogas é o acesso às que já temos”, reforça o diretor da Abeso, Rodrigo Lamounier.

Apesar dos avanços científicos no tratamento e na compreensão da obesidade, os especialistas consultados por IstoÉ afirmam que existe ainda um estigma em torno da doença, que embora tenha uma base genética e ambiental, tende a ser vista como uma falha de caráter individual. Percepção confirmada pela influenciadora – e agora estudante de nutrição – Rayane Soares, do início da reportagem. “Tento fazer a minha parte e levar essa mensagem às pessoas. Por muito tempo, tolerei ofensas por acreditar que a culpa era minha. Hoje, sei que sou digna de respeito”, conclui.

Outra fonte consultada: Henderson Fürst, advogado e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética

A cirurgia bariátrica vai acabar?

A resposta é não. O que pode mudar, de acordo com o médico cirurgião Ricardo Cohen, head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do HAOC, é a indicação. “Assim como as estatinas (remédios para colesterol) não acabaram com a ponte de safena, as cirurgias bariátricas tenderão a ser indicadas a pacientes mais complexos ou que não respondem às mediações”, resume o especialista.