Entenda os riscos de ignorar a gestão de saúde mental no ambiente corporativo

A negligência com fatores psicossociais eleva afastamentos, reduz produtividade e expõe empresas a riscos estratégicos cada vez mais relevantes

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Ignorar a gestão da saúde mental deixou de ser apenas uma falha operacional e passou a ser um risco estratégico Foto: Freepik

A Norma Regulamentadora nº 1, que estabelece diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho, tem ganhado protagonismo nas discussões empresariais — especialmente diante do avanço das pautas relacionadas à saúde mental. Ainda assim, nem sempre pelo motivo certo. Em vez de ser utilizada como base estratégica, muitos gestores ainda a enxergam como um freio operacional. Esse comportamento, segundo especialistas, cria um efeito perigoso: a negligência na gestão de riscos psicossociais e o uso da norma como justificativa para a inércia.

Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho mostram que o Brasil registra centenas de milhares de acidentes de trabalho todos os anos, além de um volume crescente de afastamentos relacionados à saúde mental.

A própria NR-1, atualizada nos últimos anos, passou a reforçar a obrigatoriedade do gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO) e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ampliando o olhar das empresas para além dos riscos físicos e incluindo fatores psicossociais — um movimento que evidencia a urgência de uma gestão mais estratégica, preventiva e atenta ao bem-estar dos colaboradores.

Para Marcela Zaidem, fundadora da Cultura na Prática (CNP), o problema não está na regulamentação, mas na forma como ela é interpretada dentro das empresas.

“A NR-1 não foi criada para limitar, mas para orientar. Quando o empresário usa a norma como desculpa para não agir — especialmente na gestão da saúde mental — ele deixa de evoluir, e isso impacta diretamente sua competitividade”, afirma.

Antes mesmo da obrigatoriedade legal, o empresário precisa assumir uma postura ativa na gestão de riscos e pessoas. Isso inclui mapear não apenas riscos físicos, mas também comportamentais, acompanhar indicadores como absenteísmo, turnover e sinais de esgotamento, além de preparar lideranças para agir preventivamente. A empresa que ignora esses sinais ou espera a norma para começar já está atrasada. A saúde mental precisa fazer parte da cultura, não apenas do compliance.

Esse cenário se torna ainda mais crítico em um momento em que saúde mental, segurança psicológica e produtividade sustentável estão no centro das decisões estratégicas. Empresas que negligenciam essa gestão tendem a ignorar indicadores essenciais, como comportamento organizacional, sinais de burnout e aumento do absenteísmo — fatores que hoje impactam diretamente os resultados financeiros.

É nesse contexto que a CNP propõe uma virada de chave. Mais do que cumprir normas, trata-se de desenvolver uma cultura ativa de monitoramento e antecipação de riscos. “Hoje, já existem tecnologias capazes de identificar padrões comportamentais e gerar alertas preventivos. A empresa que entende isso sai do modo reativo e passa a atuar de forma estratégica”, explica Marcela.

Ferramentas baseadas em inteligência artificial, por exemplo, permitem cruzar dados e identificar colaboradores em risco de burnout, estresse agudo ou queda de performance. A partir dessas análises, é possível criar planos de intervenção personalizados, reduzindo impactos antes que eles se tornem crises. Para Zaidem, essa é a verdadeira evolução: “Não é sobre cumprir a NR-1, é sobre proteger pessoas e garantir sustentabilidade ao negócio.”

No fim, a mensagem é clara: ignorar a gestão da saúde mental deixou de ser apenas uma falha operacional e passou a ser um risco estratégico. Empresários que desejam crescer de forma sustentável precisam abandonar a dependência normativa e assumir uma postura mais protagonista. “A NR-1 deve ser o ponto de partida, não o limite. Empresas que entendem isso constroem ambientes mais saudáveis, equipes mais produtivas e resultados mais consistentes”, conclui Marcela