Para muitos brasileiros, o som agudo da maquininha, o cheiro característico do consultório e a expectativa da anestesia são gatilhos que evocam o medo de ir ao dentista, levando muitos a adiarem a visita. No entanto, a odontologia moderna tem implementado abordagens e tecnologias inovadoras para combater a odontofobia, oferecendo experiências mais acolhedoras e menos invasivas, embora o acesso a esses avanços ainda revele profundas desigualdades no país.
O que aconteceu
- A odontofobia, ou medo de dentista, é combatida por novas abordagens focadas em acolhimento e técnicas menos invasivas para crianças e adultos.
- Avanços tecnológicos, como laserterapia e microabrasão, substituem procedimentos tradicionais e tornam os tratamentos odontológicos mais confortáveis.
- Apesar dos progressos, o acesso aos serviços odontológicos e às novas tecnologias ainda é desigual no Brasil, especialmente entre diferentes faixas de renda e escolaridade.
Como a odontologia moderna ajuda a superar o medo de dentista?
A mudança para uma experiência odontológica mais positiva começa ainda na infância. Nos primeiros contatos, muitas crianças encontram ambientes mais acolhedores, pensados justamente para evitar a chamada “odontofobia”. A cirurgiã-dentista Mariana Henriques Ferreira, professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE), relata que a abordagem é adaptada a essa faixa etária. “Usamos técnicas como explicar e demonstrar exatamente o que será feito, usando linguagem lúdica com atitude acolhedora, criando uma vivência positiva”, explica Mariana Henriques.
Respeitar o ritmo dos pequenos e construir um vínculo desde cedo também faz diferença. O odontologista José Carlos Pettorossi Imparato, do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp), destaca que hoje se tratam crianças antes mesmo dos primeiros dentes crescerem. “Daí o cuidado para que se sintam bem no ambiente. Em alguns casos, o paciente recebe um vídeo do profissional antes do primeiro contato pessoal para começar a se acostumar com sua figura”, conta José Carlos Imparato.
Entre os adultos, é mais comum que o especialista se concentre em ouvir suas queixas e explicar como será o procedimento. A cirurgiã-dentista Letícia Mello Bezinelli, coordenadora da graduação em Odontologia da FICSAE, afirma que recursos e equipamentos modernos e menos invasivos estão disponíveis. “Hoje temos recursos e equipamentos muito mais modernos e menos invasivos, como o uso da laserterapia de baixa potência antes da anestesia injetável, o que faz com que o tratamento seja muito menos desconfortável”, diz Letícia Bezinelli.
Novas tecnologias minimizam desconforto em tratamentos
Em algumas situações, os lasers dentários podem substituir a broca e a anestesia. Eles utilizam energia de luz focada para tratar tecidos moles, como a gengiva, e duros, como os dentes, sem contato físico, vibração ou ruído. Outro avanço significativo é a microabrasão, que permite preservar a parte saudável do dente, em vez de raspar toda a estrutura para tratar uma cárie, por exemplo.
Também são destaques recentes as cerâmicas e resinas de alta resistência e a impressão 3D, que possibilita a personalização de implantes e próteses. Essas inovações contribuem para tratamentos mais precisos, duradouros e menos incômodos para o paciente.
A desigualdade persiste no acesso aos serviços odontológicos
Apesar dos avanços tecnológicos e das novas abordagens, um levantamento realizado pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) e a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO), divulgado em 2025 durante o Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo, revela que o acesso a tratamentos odontológicos no Brasil é desigual.
De acordo com a pesquisa, 68% dos brasileiros visitaram um cirurgião-dentista no último ano, mas apenas 23% fizeram esse atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre os entrevistados com ensino superior, 75% haviam se consultado com um dentista; entre os que têm o ensino básico, esse índice foi de 54%.
Mas ir ao dentista não é capricho. Quanto mais o paciente mantém consultas regulares, em vez de procurar o consultório apenas diante de dor ou incômodo, menor é a probabilidade de precisar de intervenções mais invasivas. Em geral, recomenda-se uma visita ao ano para quem não tem sintomas. A depender da condição de saúde tanto geral quanto bucal, podem ser recomendadas duas consultas anuais.
Dicas práticas para lidar com o receio
Além de escolher um profissional em quem você confie, antes e durante a consulta, vale investir em técnicas de relaxamento, como respiração profunda, e apostar em estratégias de distração, com músicas e conversas leves. Levar um acompanhante que transmita segurança também pode ser uma alternativa.
Nos casos mais intensos de medo, a ajuda psicológica pode ser indicada. Para pacientes com ansiedade intensa ou fobia, opções de sedação consciente podem ser consideradas após avaliação clínica. “O uso de sedativos pré-consulta também pode ser útil em casos selecionados, sempre sob supervisão profissional. Em situações determinadas, podemos realizar procedimentos odontológicos em âmbito hospitalar, com anestesia geral”, acrescenta Letícia Bezinelli.