A comparação é provocativa, e, justamente por isso, chama atenção: alimentos ultraprocessados deveriam ser tratados mais como cigarro do que como comida. A afirmação vem de pesquisadores que defendem que esses produtos não são apenas fontes de calorias, mas sim formulações projetadas para estimular o consumo repetido, com potencial impacto coletivo na saúde.
Segundo a classificação NOVA, ultraprocessados são formulações industriais prontas para consumo, compostas por ingredientes extraídos ou derivados de alimentos — como óleos refinados, açúcares, amidos e gorduras — combinados a aditivos como corantes, aromatizantes e realçadores de sabor. Ao longo de múltiplas etapas de processamento, pouco resta do alimento em sua forma original.
O resultado é um produto com uma característica rara na natureza: a chamada hiperpalatabilidade, uma combinação precisa de açúcar, gordura e sal capaz de maximizar o prazer sensorial. Na prática, é o que explica por que, muitas vezes, “comer um pouco” se torna difícil. Não por falta de disciplina, mas porque esses alimentos são desenhados para ultrapassar os mecanismos naturais de saciedade.
Do ponto de vista biológico, essa resposta envolve o sistema de recompensa do cérebro. O consumo pode estimular a liberação de neurotransmissores associados ao prazer, como a dopamina, reforçando o comportamento e incentivando a repetição. É uma lógica semelhante à de outros estímulos altamente recompensadores: quanto maior o estímulo, maior a tendência de busca.
É nesse contexto que surge a analogia com a indústria do tabaco. Assim como os cigarros foram historicamente desenvolvidos para aumentar adesão e frequência de uso, pesquisadores apontam que parte da indústria alimentícia também investe em engenharia de produto, marketing e estratégias de consumo que favorecem a repetição, muitas vezes dissociada da fome real.
Ainda assim, especialistas fazem ressalvas importantes. Diferentemente do cigarro, o alimento é essencial à vida, e nem todo ultraprocessado tem o mesmo impacto metabólico ou comportamental. Além disso, o conceito de “vício em comida” ainda é debatido na literatura científica, já que, ao contrário de substâncias classicamente aditivas, a resposta aos ultraprocessados varia entre indivíduos.
Mais do que uma comparação literal, o debate atual desloca o foco da responsabilidade individual para um contexto mais amplo. Em vez de tratar o consumo apenas como uma questão de escolha, a discussão passa a considerar o ambiente alimentar moderno, onde produtos altamente palatáveis, acessíveis e amplamente promovidos tornam o excesso não apenas possível, mas provável.
Por isso, ao assumir um caráter estrutural, o problema também exige respostas estruturais. Isso inclui desde políticas públicas mais robustas — como regulação de marketing, rotulagem clara e incentivo ao consumo de alimentos in natura — até estratégias de educação alimentar e promoção de ambientes mais saudáveis. Afinal, quando o sistema favorece o excesso, a solução dificilmente pode recair apenas sobre o indivíduo.