Atraso no diagnóstico de endometriose no Brasil chega a 7 anos; conheça os riscos

Com incidência de até 15% no Brasil, a endometriose ainda enfrenta o gargalo do diagnóstico tardio. Conheça as novas terapias, o uso de IA e o impacto da doença

Endometriose
Foto: Freepik

Cólicas incapacitantes, dor crônica e dificuldade para engravidar compõem o cotidiano de milhões de mulheres que convivem com a endometriose. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a patologia atinge cerca de 10% da população feminina em idade reprodutiva globalmente. No Brasil, os dados do Ministério da Saúde apontam uma prevalência entre 5% e 15%. Apesar da gravidade, o diagnóstico ainda esbarra em preconceitos e na falta de especialização clínica, demorando anos para ser confirmado.

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A endometriose caracteriza-se pelo desenvolvimento de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, podendo atingir ovários, tubas, intestino e peritônio. Durante o ciclo menstrual, essas células reagem aos estímulos hormonais, resultando em inflamações e aderências. “É uma doença que depende de mecanismos genéticos que a fazem persistir no corpo da mulher”, explica o ginecologista Rubens Paulo Gonçalves Filho, especialista em endometriose do Einstein Hospital Israelita.

O desafio do diagnóstico precoce

Um dos maiores obstáculos no Brasil é a demora na identificação da doença, que leva, em média, sete anos. Esse atraso deve-se, em parte, à naturalização da dor menstrual por profissionais não especializados. Segundo Ricardo De Almeida Quintairos, presidente da Comissão Nacional de Endometriose da Febrasgo, a detecção é tecnicamente simples, mas depende de um olhar treinado. “O problema é que, muitas vezes, essas mulheres vão em médicos generalistas que não conhecem a doença”, observa.

“A partir do momento que elas têm cólica menstrual intensa, devem procurar o sistema de saúde. Falta trabalho governamental para massificar a mensagem de que essa dor não é normal.”

Manejo clínico e qualidade de vida

Embora não haja cura definitiva, o tratamento foca no controle dos sintomas e na preservação da fertilidade. O arsenal terapêutico inclui desde anti-inflamatórios e pílulas anticoncepcionais até o uso de dispositivos intrauterinos (Bacen) e análogos de GnRH. Em casos de dor refratária ou comprometimento de órgãos, a videolaparoscopia e a cirurgia robótica são as intervenções indicadas para remover os focos da doença.

Além da medicina tradicional, o acompanhamento multidisciplinar tem se mostrado fundamental. Estudos associam a prática de exercícios físicos e a acupuntura à redução da inflamação sistêmica e melhora do sono. A nutrição também desempenha papel adjuvante; revisões científicas sugerem que a vitamina D e antioxidantes auxiliam na modulação da dor.

Inovação: IA e medicina de precisão

As fronteiras da pesquisa em 2026 miram métodos menos invasivos. A inteligência artificial (IA) já começa a ser utilizada para identificar padrões em exames de imagem que escapam ao olho humano. No campo laboratorial, a análise de microRNAs na saliva surge como uma promessa para distinguir pacientes com endometriose sem a necessidade de biópsias. “Espero que, com o tempo, a gente consiga resolver alguns casos de maneira mais tranquila”, projeta Quintairos, referindo-se aos novos moduladores hormonais em fase de testes.