O diagnóstico de um transtorno mental em uma criança ou adolescente é um divisor de águas que altera não apenas a dinâmica emocional, mas o próprio destino econômico de uma família. Um estudo recente, divulgado pela Agência FAPESP, traz um dado alarmante: o custo para apoiar filhos com transtornos mentais graves consome, em média, 50% da renda mensal familiar no Brasil. Esse valor não engloba apenas gastos diretos, como consultas e medicamentos, mas revela um “custo invisível” que envolve a perda de produtividade e a renúncia à carreira dos cuidadores.
A pesquisa evidencia que a saúde mental não é apenas um desafio clínico, mas uma questão de justiça econômica. Para famílias que vivem com orçamentos apertados, o diagnóstico pode significar a queda para baixo da linha da pobreza, criando um ciclo onde a falta de recursos agrava o quadro clínico do jovem, o que, por sua vez, demanda ainda mais gastos e tempo de cuidado.
O peso no orçamento: metade do rendimento médio das famílias é drenado por despesas ligadas ao manejo do transtorno.
Cuidado feminino: na maioria dos casos, são as mães que renunciam ao mercado de trabalho para se dedicarem integralmente ao cuidado, aprofundando a desigualdade de gênero.
Gasto direto vs. indireto: além de fármacos e terapias, o custo inclui transporte, dietas específicas e a adaptação do ambiente doméstico.
Impacto na previdência: a longo prazo, a saída precoce desses cuidadores do mercado de trabalho impacta a arrecadação e a segurança social.
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A anatomia do gasto: por que é tão caro?
Diferente de doenças agudas, os transtornos mentais são condições crônicas que exigem manejo multidisciplinar. O tratamento ideal envolve psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e, em muitos casos, fonoaudiólogos e psicopedagogos. No Brasil, embora o SUS ofereça os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), a demanda reprimida e a distribuição geográfica desigual forçam muitas famílias a buscarem o setor privado, mesmo sem condições financeiras.
O estudo da FAPESP aponta que o gasto catastrófico ocorre porque o cuidado é “tempo-dependente”. Quando um filho apresenta crises ou dificuldades de socialização, um dos pais (geralmente a mãe) precisa estar disponível 24 horas por dia. Isso resulta em faltas constantes no trabalho, redução de jornada ou o abandono total do emprego. A perda dessa segunda renda familiar, somada ao aumento das despesas, é a receita para o endividamento crônico.
O efeito cascata na saúde dos cuidadores
Não é apenas o bolso que adoece. O estresse financeiro, somado à carga emocional do cuidado, gera um efeito cascata. Cuidadores de filhos com transtornos mentais apresentam taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade e doenças psicossomáticas.
O isolamento social é outro fator crítico. Com 50% da renda comprometida, atividades de lazer e redes de apoio comunitário são cortadas. Sem lazer e sem dinheiro, o cuidador entra em exaustão, o que prejudica a qualidade do cuidado oferecido ao filho, criando um ambiente de alta tensão emocional que retroalimenta o transtorno mental do jovem.
Políticas públicas: o caminho da sobrevivência
Para os pesquisadores ouvidos pela Agência FAPESP, a solução passa por enxergar a família como a unidade que precisa de tratamento, e não apenas o indivíduo diagnosticado. Propostas de auxílio-cuidado ou subsídios para medicamentos de alto custo são essenciais, mas não suficientes.
É necessário que o mercado de trabalho se adapte com leis que protejam a jornada flexível para pais cuidadores, sem que isso resulte em demissão ou redução salarial drástica. Além disso, o fortalecimento da rede pública de assistência social e saúde mental é a única forma de evitar que o diagnóstico de um transtorno mental seja, na prática, uma sentença de falência financeira para a família brasileira.
Com informações da Agência Fapesp