Gases frequentes, barriga estufada ao final do dia, alterações intestinais, sensação constante de empachamento e até fadiga sem explicação aparente. Embora esses sintomas sejam comuns, eles não devem ser considerados normais.
Segundo a gastroenterologista Dra. Pâmela Oliveira Waideman, especialista em saúde intestinal, microbiota e gastroenterologia funcional, muitos pacientes convivem durante anos com esses desconfortos sem receber respostas claras sobre a origem do problema.
“Historicamente, a medicina foi treinada para procurar alterações estruturais, como inflamações importantes, tumores ou úlceras. Quando exames como endoscopia e colonoscopia vinham normais, muitos pacientes ouviam que não tinham nada ou que seus sintomas eram apenas emocionais”, explica.
Formada em Medicina pela Universidade de Rio Verde, com residência em Clínica Médica no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) e especialização em Gastroenterologia pelo Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), a médica aprofundou sua atuação na área de gastroenterologia funcional por meio de fellowship especializado em São Paulo, direcionando sua prática para condições que frequentemente passam despercebidas na investigação convencional.
Hoje, uma das principais áreas de atuação da especialista envolve o diagnóstico e tratamento da disbiose intestinal, da Síndrome do Intestino Irritável, das intolerâncias alimentares e de condições como a SIBO (Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado), a IMO (Supercrescimento de Metanogênicos) e a SIFO (Supercrescimento Fúngico).
O que mudou na gastroenterologia
Nos últimos anos, a ciência passou a enxergar o intestino de forma muito mais ampla. Mais do que um órgão digestivo, ele é considerado um ecossistema complexo, conectado ao sistema imunológico, ao metabolismo e ao cérebro.
Essa mudança permitiu compreender que sintomas como gases excessivos, distensão abdominal e alterações intestinais podem estar relacionados a desequilíbrios da microbiota, alterações da motilidade intestinal e disfunções no chamado eixo intestino-cérebro.
“A ausência de uma doença estrutural não significa ausência de um problema real. Muitas vezes o paciente sofre com alterações funcionais que não aparecem nos exames tradicionais, mas impactam significativamente sua qualidade de vida”, afirma.
Quando a barriga estufada não é apenas um incômodo
Entre as condições mais investigadas atualmente está a SIBO, sigla para Supercrescimento Bacteriano no Intestino Delgado.
Nesses casos, bactérias que normalmente habitam o intestino grosso passam a proliferar em excesso no intestino delgado, provocando fermentação precoce dos alimentos e gerando sintomas como gases, estufamento, desconforto abdominal, alterações intestinais e até manifestações fora do sistema digestivo, como fadiga e dificuldade de concentração.
Já a disbiose intestinal ocorre quando há um desequilíbrio na composição da microbiota, comprometendo funções importantes relacionadas à digestão, imunidade e integridade da barreira intestinal.
“Não é normal precisar desapertar a calça todos os dias depois das refeições, eliminar gases em excesso constantemente ou restringir diversos alimentos por medo de passar mal. Esses são sinais de que algo merece investigação”, alerta.
O exame que tem ganhado espaço na investigação
Para auxiliar nesse diagnóstico, um exame tem despertado crescente interesse entre especialistas: o Teste Respiratório do Hidrogênio e Metano Expirado.
Realizado sem necessidade de sedação ou procedimentos invasivos, o método avalia a produção de gases decorrente da fermentação intestinal após a ingestão de substâncias específicas, como glicose, lactulose, lactose ou frutose.
Segundo a especialista, o exame permite identificar com maior precisão condições como SIBO, IMO e intolerâncias alimentares, ajudando a esclarecer sintomas que muitas vezes permanecem sem explicação por anos.
“É uma ferramenta que nos permite observar o funcionamento do intestino em tempo real. Em vez de apenas avaliar a anatomia, conseguimos compreender a atividade metabólica da microbiota e direcionar o tratamento de forma muito mais personalizada”, explica.
Diagnóstico correto, tratamento mais eficaz
A partir da identificação da causa dos sintomas, o tratamento deixa de ser focado apenas no controle dos desconfortos e passa a atuar diretamente sobre os mecanismos envolvidos.
A estratégia pode incluir ajustes alimentares individualizados, protocolos específicos para modulação da microbiota, manejo das intolerâncias alimentares, correção da motilidade intestinal e intervenções direcionadas ao equilíbrio do eixo intestino-cérebro.
“O objetivo não é apenas reduzir gases ou melhorar o funcionamento intestinal. É devolver ao paciente qualidade de vida, liberdade alimentar e confiança no próprio corpo”, conclui a gastroenterologista.