No Dia Internacional das Mulheres, um tema tem atravessado consultórios e conversas cotidianas: o cansaço emocional. Para a psicanalista Fabiana Guntovitch*, essa exaustão não é individual mas, sim, estrutural. “O cansaço emocional feminino não é fraqueza individual é fenômeno estrutural. Do ponto de vista da psicologia social, mulheres continuam acumulando jornada dupla ou tripla”, afirma.
“Mas esse peso vai muito além dessas jornadas de trabalho. Não é somente sobre os ‘afazeres’, é sobre responsabilidade, práticas e também sobre ser mulher, mãe, esposa, filha, a cuidadosa e aquela que garante o bem-estar e a possibilidade de sucesso não apenas dela mesma, mas de toda a família”, emenda a especialista.
Dados do IBGE (PNAD Contínua 2022) mostram que mulheres brasileiras dedicam quase o dobro de horas semanais aos afazeres domésticos em comparação aos homens. Globalmente, a ONU Mulheres aponta ainda que elas realizam cerca de 76% do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
Mas, segundo Fabiana, há uma dimensão ainda menos visível. “Sobre a mulher recaem não apenas as tarefas domésticas, mas as garantias de gestão da família, de cuidado psicoemocional, de ser porto seguro, pilar, e de carregar e também mediar as relações interpessoais dentro da família”, detalha a especialista.
Essa sobrecarga não impacta apenas a organização da rotina, mas a saúde física e mental. A ativação crônica do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), responsável pela resposta ao estresse, eleva os níveis de cortisol e está associada a maior risco de depressão, ansiedade e doenças autoimunes. “Para muitas mulheres, dar conta de tudo se tornou identidade. O problema é o preço pago por isso. O risco maior é o colapso silencioso: burnout, depressão funcional, distúrbios do sono, irritabilidade crônica”, sinaliza Fabiana.
A Organização Mundial da Saúde também reconheceu o burnout como fenômeno ocupacional em 2019. Estudos populacionais indicam taxas mais altas de exaustão emocional entre mulheres. Outro ponto central é a chamada carga mental invisível, ou seja, o trabalho constante de antecipar, planejar e organizar. “Não é apenas fazer, é pensar em todos e por todos. É garantir que todas as necessidades sejam atendidas”, diz a psicanalista.
Essa hiperativação permanente mantém o cérebro em estado de vigilância, impactando sono, memória e humor. “No imaginário social, a ‘mulher forte’ é celebrada. Mas essa idealização também adoece. A mulher maravilha de hoje, aplaudida e exaltada, é a mulher cheia de mágoas amanhã”, afirma Fabiana, que reconhece ainda que pedir ajuda acaba sendo difícil porque implica reconhecer limites. “Muitas foram ensinadas a respeitar os limites alheios, mas não impor ou comunicar os próprios”, sinaliza.
A culpa também desempenha papel central no esgotamento emocional. “Culpa materna, culpa profissional, culpa por descansar, culpa por se posicionar. A culpa é um companheiro insistente e silencioso, que impede descanso legítimo, necessário para a autorregulação”, explica ela.
Entre os sinais de alerta estão irritabilidade persistente, alterações de sono, esquecimentos frequentes, perda de prazer e sintomas físicos recorrentes. “Se o descanso não restaura, não é só cansaço, é exaustão”, afirma. Ainda segundo a especialista, muitas mulheres só param quando o corpo adoece. “Quando o ‘não’ não é dito, o corpo grita”, diz Fabiana, que afirma que o primeiro passo é o reconhecimento sem culpa.
“Exaustão não é fracasso pessoal. É sinal de que algo na estrutura precisa ser reorganizado, comunicado e, pelo bem não apenas desta mulher, mas de todos à sua volta, e de todas as mulheres que fazem parte de um coletivo adoecido e exausto, ser espaço para falar de tantas dores e violências normalizadas”, conclui.