Embora a escovação dos dentes seja um hábito cotidiano, a rapidez na execução da tarefa pode comprometer a eficácia do principal agente protetor contra a cárie: o flúor. Estudos recentes conduzidos pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp) revelam que a absorção do fluoreto pelo esmalte dentário depende diretamente do tempo de exposição e da formulação do creme dental utilizado.
Resumo:
Eficácia em xeque: pesquisa da Unicamp mostra que alguns cremes dentais liberam apenas metade do flúor prometido no rótulo durante a escovação.
Barreira química: o fluoreto é a única substância capaz de reduzir significativamente a desmineralização dentária causada por bactérias e açúcares.
Tempo é saúde: especialistas recomendam que o processo de higiene dure, no mínimo, dois minutos para garantir a solubilidade do ativo.
Saúde pública: a cárie afeta 2,5 bilhões de pessoas globalmente, sendo a condição crônica mais prevalente segundo a OMS.
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A investigação, publicada nos periódicos Brazilian Dental Journal e Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada, joga luz sobre uma variável frequentemente negligenciada: a disponibilidade do fluoreto. Durante o ato de escovar, o flúor atua como uma “fluorterapia” diária. No entanto, o professor Jaime Cury, mentor do estudo e autoridade no tema, alerta que o valor declarado na embalagem nem sempre corresponde ao que chega, de fato, à superfície do dente.
O impacto da viscosidade no tratamento
Os testes laboratoriais e com voluntários demonstraram que a textura do creme dental influencia a liberação da substância ativa. Pastas com formulações mais fluidas ou “rasas” tendem a liberar o fluoreto com maior agilidade, permitindo que ele se dissolva na saliva e alcance áreas críticas. Em contrapartida, cremes mais espessos e viscosos retêm o mineral por mais tempo, exigindo uma escovação mais prolongada para que a proteção seja efetiva.
“O ponto mais importante não é apenas quanto flúor está declarado no rótulo, mas quanto desse fluoreto está realmente solúvel e disponível para ser liberado na boca durante a escovação.”
Jaime Cury
Para indivíduos com maior predisposição ao desenvolvimento de cáries, essa diferença técnica pode significar a perda da barreira protetora ao longo dos anos. A cirurgiã-dentista Bruna Fronza, professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, reforça que a prevenção é um processo de exposição frequente e acumulada. Se o aporte de fluoreto for insuficiente rotineiramente, o esmalte torna-se vulnerável.
O mito do enxágue excessivo
Um dos erros mais comuns apontados pelos especialistas é o bochecho imediato com grandes quantidades de água após a escovação. Ao remover o excesso de pasta de forma agressiva, o usuário elimina o flúor residual que continuaria agindo nos minutos seguintes. A recomendação técnica é cuspir o excesso e evitar o enxágue total, mantendo uma fina camada do mineral em contato com os dentes.
Além disso, a quantidade de produto deve ser ajustada rigorosamente por faixa etária para evitar a fluorose em crianças. O protocolo sugerido pelos pesquisadores indica:
Até 3 anos: Quantidade equivalente a um grão de arroz.
3 a 7 anos: Tamanho de uma ervilha.
Adultos: Cerca de um centímetro de creme dental.
Um desafio global de saúde
A relevância do estudo da Unicamp ganha contornos dramáticos diante dos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A cárie não é apenas um incômodo estético ou infantil; é uma doença crônica que impacta a nutrição, a fala e a qualidade de vida de bilhões de adultos. O tratamento, muitas vezes oneroso, sobrecarrega sistemas de saúde e afeta a produtividade econômica.
A escovação mecânica, portanto, deve ser encarada como um procedimento técnico. “A escovação mecânica é fundamental e não pode ser substituída. É ela que remove o biofilme dental, que tem papel central no desenvolvimento da cárie”, ensina Fronza. O creme dental atua como o combustível químico dessa máquina de limpeza, mas sua eficácia depende, invariavelmente, do fator tempo.