Décadas após o encerramento da maioria dos programas de detonações atômicas, as consequências dos testes nucleares permanecem como uma crise de saúde pública global. Um novo relatório da organização humanitária Norwegian People’s Aid (NPA), fornecido com exclusividade à “AFP”, revela que o legado desses experimentos é responsável por cerca de 4 milhões de mortes prematuras em todo o mundo, evidenciando que a ameaça nuclear transcende o período da Guerra Fria.
Entre 1945 e 2017, mais de 2.400 dispositivos nucleares foram detonados por 15 países.
O estudo estima 2 milhões de mortes por câncer e outros 2 milhões por infartos e AVCs ligados à radiação.
Mulheres e meninas são 52% mais suscetíveis aos efeitos cancerígenos da radiação do que os homens.
Praticamente todos os seres humanos vivos hoje carregam isótopos radioativos nos ossos.
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O custo humano e o sigilo estatal
O documento de 300 páginas detalha como as detonações, realizadas majoritariamente em ex-colônias e áreas remotas, devastaram ecossistemas e populações locais. O diretor da NPA, Raymond Johansen, alerta que os testes do passado continuam a matar no presente. O relatório surge em um momento de tensão diplomática, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugerir em novembro a retomada dos testes nucleares, acusando Rússia e China de práticas semelhantes — alegações negadas por ambos os países.
Para a professora de química da Universidade de Columbia, Ivana Hughes, a sugestão de retomar as detonações é “muito perigosa”. Segundo a especialista, o histórico de testes demonstra consequências graves e duradouras, mesmo na ausência de um conflito nuclear declarado. O impacto é sentido de forma desproporcional por comunidades que viviam próximas aos locais de teste, enfrentando altos índices de anomalias congênitas e câncer.
O caso da Polinésia Francesa
Hinamoeura Cross, membro da Assembleia da Polinésia Francesa, é um dos rostos dessa tragédia. Diagnosticada com leucemia 17 anos após o último teste francês na região, em 1996, ela relata um histórico familiar de câncer de tireoide. Entre 1966 e 1996, a França realizou 193 explosões na região. A detonação mais potente foi 200 vezes superior à bomba lançada sobre Hiroshima em 1945.
“Eles nos envenenaram. A propaganda era muito forte e, na escola, aprendíamos apenas sobre o impacto econômico positivo. Não eram apenas testes, eram bombas de verdade e fomos tratados como cobaias.”
Hinamoeura Cross
Radiação sistêmica e disparidade de gênero
O relatório cita evidências científicas de que a exposição à radiação provoca danos ao DNA e doenças cardiovasculares mesmo em níveis baixos. Tilman Ruff, pesquisador de saúde pública da Universidade de Melbourne e cofundador da Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN) — organização que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2017 —, destaca que os riscos são subestimados.
A vulnerabilidade biológica varia significativamente: fetos e crianças pequenas são os grupos de maior risco. Além disso, a sensibilidade feminina aos efeitos ionizantes é um fator crítico apontado pela pesquisa, com mulheres apresentando uma propensão 52% maior ao desenvolvimento de tumores rádio-induzidos.
A cultura do silenciamento
A NPA denuncia uma cultura de sigilo por parte das potências nucleares. Governos frequentemente ocultam dados sobre o lixo atômico e o impacto ambiental. Em Kiribati, estudos conduzidos por Estados Unidos e Reino Unido permanecem classificados. Na Argélia, o paradeiro do lixo nuclear enterrado pela França continua sendo uma incógnita para as autoridades locais.
Abaixo, os principais locais afetados e o status das informações:
| Região | Potência Responsável | Impacto Principal | Status da Informação |
| Polinésia Francesa | França | 193 testes; alta taxa de câncer de tireoide. | Minimizado por décadas. |
| Atol de Bikini | Estados Unidos | Bomba Castle Bravo (1.000 vezes Hiroshima). | Síndrome de radiação aguda em civis. |
| Argélia | França | Lixo nuclear enterrado em locais incertos. | Dados ainda não compartilhados. |
| Kiribati | Reino Unido/EUA | Exposição de populações nativas. | Documentos permanecem sob sigilo. |
A antropóloga Magdalena Stawkowski, coautora do relatório, afirma que todos os humanos vivos hoje possuem “assinaturas” radioativas em sua estrutura óssea por meio de testes atmosféricos realizados até 1980. O documento conclui com um apelo para que os Estados detentores de armas nucleares assumam a responsabilidade financeira e médica pela limpeza das áreas contaminadas e pelo auxílio às vítimas, buscando encerrar um ciclo de trauma que já atravessa três gerações.
Com informações da AFP