A oncologia mundial atravessa um período de transformação sem precedentes. Nas últimas duas décadas, o arsenal contra o câncer evoluiu da tríade tradicional (cirurgia, radioterapia e quimioterapia) para estratégias personalizadas, como os conjugados anticorpo-droga e a imunoterapia. No entanto, o entusiasmo com a ciência de ponta confronta-se com um desafio logístico e ético: a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde.
Segundo a dra. Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o avanço acelerado corre o risco de ampliar o abismo social. “A questão é como fazer com que a inovação não amplie ainda mais o abismo entre quem pode e quem não pode acessar o tratamento”, afirma.
Resumo
A oncologia brasileira vive uma revolução com terapias-alvo e imunoterapia, mas o alto custo pressiona o orçamento do SUS;
O custo direto do tratamento oncológico no sistema público atingiu R$ 3,9 bilhões em 2022;
A Lei dos 60 dias, que garante o início do tratamento, ainda enfrenta gargalos de ineficiência e diagnósticos tardios;
Especialistas defendem que a prevenção e o diagnóstico precoce são as inovações mais “escaláveis” e sustentáveis para o país.
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A pressão dos custos
A medicina de precisão exige infraestrutura complexa e exames de alto valor agregado. No Brasil, o custo direto do tratamento oncológico no SUS chegou a R$ 3,9 bilhões em 2022. O dado reflete uma pressão crescente gerada pelo envelhecimento da população e pela mudança nos estilos de vida, que elevam a incidência da doença.
Para a SBOC, a solução não passa pela interrupção da inovação, mas por uma gestão baseada em valor. “Os recursos são finitos. É fundamental organizar prioridades com base em benefício real e impacto coletivo”, diz Baldotto.
Diagnóstico tardio e ineficiência
Embora a Lei 12.732/2012 (Lei dos 60 dias) assegure o início do tratamento em dois meses após o diagnóstico, o sistema ainda falha na execução. O atraso não apenas diminui as chances de cura, como encarece o cuidado, já que a doença avança para estágios que exigem intervenções mais agressivas e custosas.
A nova Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (Lei 14.758/2023) tenta organizar essa linha de cuidado, mas sua eficácia depende de financiamento estável e monitoramento rigoroso. “Ineficiência, na oncologia, é sofrimento evitável”, critica a especialista.
O caminho da sustentabilidade
O consenso entre gestores e médicos é que a inovação mais eficiente e escalável reside na prevenção. Medidas como a vacinação contra o HPV, o combate ao tabagismo e o rastreamento organizado (como mamografias e exames de próstata) impedem que o câncer surja ou permitem que seja detectado em fases curáveis.
“A inovação mais escalável muitas vezes é a que impede o câncer de surgir. Isso preserva recursos para quem realmente precisa de terapias avançadas”, resume a dra. Clarissa Baldotto.