Críticas e evidências: estudo reacende debate sobre o uso terapêutico da gestrinona

Enquanto implantes hormonais seguem cercados por controvérsias, resultados preliminares do estudo GLADE apontam um possível papel da gestrinona no tratamento da endometriose profunda e reforçam a importância de diferenciar uso estético de indicação médica

Gestrinona chip da beleza
Foto: Reprodução

Nos últimos anos, poucas substâncias despertaram tanta discussão na saúde feminina quanto a gestrinona. Frequentemente associada ao chamado “chip da beleza” — termo rejeitado por especialistas — a molécula passou a ocupar o centro de debates sobre segurança, indicações médicas e uso indiscriminado de hormônios.

Para o ginecologista André Malavasi, entretanto, parte da controvérsia nasce justamente da confusão entre marketing e medicina.

“Não existe chip da beleza. O que temos é um dispositivo subcutâneo capaz de liberar medicamentos de forma previsível. Hormônios são utilizados para tratar doenças e corrigir deficiências hormonais, não com finalidade estética”, afirmou em entrevista à IstoÉ Saúde.

Uma mesma substância, discussões diferentes

Segundo especialistas, é importante diferenciar o debate sobre a gestrinona do debate sobre as formas de administração hormonal.

Enquanto o uso estético de hormônios vem sendo questionado por entidades médicas, pesquisadores continuam investigando possíveis aplicações terapêuticas da substância em condições específicas, entre elas a endometriose profunda.

O que mostrou o estudo GLADE

Durante a entrevista, Malavasi citou os resultados preliminares do estudo GLADE, apresentado recentemente em congresso internacional de ginecologia endócrina realizado em Roma.

De acordo com o médico, a pesquisa acompanhou mulheres com endometriose profunda que apresentavam dor importante e avaliou o uso de implantes contendo gestrinona.

Os dados iniciais indicaram melhora significativa dos sintomas dolorosos e abriram caminho para novas investigações científicas sobre o tema.

“Foi um estudo de segurança para verificar se o implante de gestrinona poderia representar uma alternativa para pacientes que já não encontravam resposta adequada às opções terapêuticas disponíveis”, explicou.

O paradoxo da ciência

O caso da gestrinona ilustra um fenômeno comum na medicina moderna: uma mesma substância pode ser alvo de críticas em determinados contextos e, simultaneamente, continuar sendo investigada como ferramenta terapêutica em doenças específicas.

Para especialistas, isso não representa contradição, mas o funcionamento natural da ciência baseada em evidências, que exige avaliação contínua de riscos, benefícios e indicações.

O próximo capítulo

Os resultados completos do estudo GLADE ainda aguardam publicação em periódico científico internacional de alto impacto e deverão ser submetidos ao escrutínio da comunidade médica global.

Até lá, o debate permanece aberto. Mas os dados preliminares já indicam que a discussão sobre a gestrinona está longe de ser encerrada.